Marzagão enfrentou 10 crises em pouco mais de 2 anos no cargo

Secretário de Segurança Pública assumiu no início do governo José Serra, em 2007, e pediu demissão da pasta

da Redação,

18 Março 2009 | 09h29

Ex-policial militar, promotor criminal aposentado e advogado criminalista formado pela FMU, Marzagão foi escolhido para assumir a Secretaria de Segurança Pública pelo governador José Serra. Assumiu o cargo no início do governo, no começo de 2007, e substituiu o então secretário Saulo de Castro. Antes de assumir a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Marzagão foi assessor da Secretaria Estadual da Segurança de SP. Coordenou o departamento de combate às drogas no Ministério da Justiça e presidiu o Conselho Federal de Entorpecentes.

 

Durante sua gestão, enfrentou diversas crises, escândalos e denúncias. Confira abaixo a cronologia que levou Marzagão até sua renúncia, em março de 2009.

 

25/7/2007 - Caso Chokr e os caça-níqueis

Escutas realizadas pela Polícia Federal confirmaram que o advogado Jamil Chokr levava dinheiro para pagar propina a policiais civis de São Paulo quando sofreu um acidente na Marginal do Tietê, no dia 25 de julho de 2007. As conversas foram gravadas pelos agentes durante as investigações que resultaram na Operação Xeque-Mate, e flagraram advogados e empresários de São Paulo ligados à máfia dos caça-níqueis comentando a descoberta de dinheiro e documentos no carro de Chokr.

 

Entre os papéis havia uma lista de propina que parte da cúpula da Polícia Civil tentou desqualificar, levantando a suspeita de fraude contra os policiais militares que a apreenderam. Antes das escutas feitas pela PF, a apreensão de documentos no escritório e na casa do advogado já tinham reforçado os indícios de que a lista discriminava propinas.

 

Nas conversas gravadas pela PF, surgiram nomes, como o do empresário Raimondo Romano. Dono da empresa Multiplay, fornecedora de peças para máquinas caça-níqueis, Romano está há quase 20 anos no ramo de diversões eletrônicas. Começou com fliperamas. Uma de suas conversas com um homem identificado como Xuli ocorre minutos depois de a notícia sobre o material apreendido com Chokr ter sido divulgada. Um motociclista tentou roubar o advogado que, ao fugir, bateu seu Vectra blindado. Quando o socorreram, PMs acharam a lista de propina e R$ 27 mil em envelopes endereçados a 29 distritos e delegacias seccionais de São Paulo. Havia até bilhetes com pedidos aos policiais de cada delegacia, como "por enquanto, parem de bater", endereçado à 6ª Seccional (Santo Amaro).

 

25/10/2007 - Pórrio e os achaques

Os achaques de policiais à quadrilha do megatraficante colombiano Juan Carlos Abadía foi o segundo grande escândalo que atingiu a Polícia Civil de São Paulo. O delegado Pedro Luiz Pórrio foi preso acusado de extorquir o colombiano. Além disso, é acusado de achacar um traficante de Campinas. Na cartilha do grupo, estão ameaças a mulheres dos traficantes, uso do poder de polícia para levantar dados, intimidar, torturar e espancar.

 

A primeira acusação contra Pórrio é relacionada à época em que o policial chefiava a Delegacia Seccional de Osasco, na Grande São Paulo. O empresário Daniel Braz Maróstica, operador de Abadía em São Paulo, contou em depoimento que teve de deixar um carro importado e dinheiro com policiais do Denarc para conseguir a liberação da mulher, Ana Maria Stein. No depoimento, diz que em julho de 2006 Ana telefonou para dizer que fora levada por policiais. Encaminhado ao Denarc, viu a mulher "nervosa, pálida, trêmula e desesperada" isolada em uma sala. Em seguida Pórrio teria extorquido dinheiro do empresário e liberado Ana sem registrar ocorrência - o delegado disse que foi só uma "averiguação".

 

Segundo denúncia do Ministério Público, em 21 de setembro de 2007, Pórrio e seus investigadores foram a Campinas, em três viaturas, à procura de José Silas Pereira da Silva, acusado de envolvimento com tráfico de drogas. A polícia local não foi informada sobre a operação. Silva foi encontrado e levado para a casa da Rua Direitos Humanos, onde mora a irmã dele, Jucileide Pereira da Silva. Os policiais não tinham mandado. No imóvel, os investigadores encontraram uma espingarda. A tortura teria começado após a apreensão da arma. Os policiais queriam que os irmãos dissessem onde escondiam drogas e dinheiro.

 

Silva levou socos e pontapés e foi sufocado com saco plástico. Ele desmaiou. Segundo as denúncias, a irmã dele também foi agredida com tapas, socos, e chutes pela investigadora Regina dos Santos, a única mulher na equipe de policiais. Os torturadores também colocam saco plástico na cabeça de Jucileide. Silva recobrou os sentidos e, ao presenciar as agressões à irmã, revelou o endereço de sua casa. Ainda sem mandado, os policiais foram à casa de Silva, na Chácara 6 da Rua Valter Machado de Campos, Jardim Monte Belo. A mulher dele, Érika Cristina Ferreira, se recuperava de cirurgia. Ela foi ameaçada e trancada no banheiro.

 

Num dos cômodos da casa, os investigadores encontraram R$ 34.962,00. Depois localizaram mais R$ 5 mil. Também se apoderaram de um veículo Gol. O dinheiro foi escondido numa viatura. Insatisfeitos, os investigadores ainda queriam mais R$ 200 mil. Mas não conseguiram o dinheiro. Os policiais foram ainda à casa do eletricista Luiz César Alves,amigo de Silva. Também segundo as denúncias, Alves foi torturado e obrigado a cavar buracos na casa. A intenção era achar drogas. Alves levou pontapés, golpes de enxada e foi sufocado com o saco. Os policiais só não sabiam que a PF monitorava amigos de Silva. Os crimes de tortura, roubo e extorsão vieram à tona.

 

16/2/2008 - Matadores do 18º

O coronel da Polícia Militar, José Hermínio Rodrigues, foi assassinado na manhã de 16 de janeiro de 2008, com cinco tiros. Ele estava andando de bicicleta quando um homem chegou em uma moto preta e o matou, na Avenida Engenheiro Caetano Alvares, no Jardim Elisa Maria. O coronel comandava o 18.º Batalhão e investigava a formação de grupos de extermínio por policiais da zona norte de São Paulo. Ele também atuava no combate à máfias dos jogos e chacinas na região.

 

Hermínio sabia que corria perigo por fazer esses enfrentamentos, pois estava incomodando grupos criminosos, e comentou isso com colegas da Polícia Civil. O coronel recebia telefonemas com ameaças depois que iniciou o combate ao crime na zona norte. Desde a morte de Hermínio, ao menos sete policiais foram presos, acusados de envolvimento com o assassinato do coronel ou com o grupo de extermínio investigado por ele. O governador de São Paulo, José Serra, admitiu a existências desses grupos e anunciou o combate. O comandante geral da Polícia Militar, coronel Roberto Antonio Diniz, no entanto, afirmou, um dia depois, que não existem provas para estabelecer vínculos das chacinas com grupos policiais, principalmente do 18.º Batalhão.

 

O corpo do coronel, divorciado e com um filho de 8 anos, foi enterrado no dia seguinte ao assassinato. Ele formou-se aspirante oficial na Academia do Barro Branco em 1980. Concluiu em 2001 o Curso Superior de Polícia, exigido para policiais que pretendem se tornar coronéis. Em março deste ano, uma escola municipal no Jardim Elisa Maria recebeu o nome de Hermínio.

 

30/4/2008 - Achaques ao PCC

Os achaques ao Primeiro Comando da Capital (PPC) foram descobertos depois que a ex-mulher do investigador da Polícia Civil, Augusto Pena, entregou CDs com escutas telefônicas feita pelo policial e outros documentos. Pena e o também policial José Roberto Araújo são acusados de terem seqüestrado por dois dias, em 2005, o estudante R.O, enteado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. O jovem foi liberado após o pagamento de R$ 300 mil de resgate.

 

Ambos foram afastados das ruas, suspeitos do crime. Em 2007 foram reintegrados ao serviço, após suposta ordem do então secretário-adjunto de Segurança Pública, Lauro Malheiros Neto. Depois que a polícia obteve as escutas, Pena e Araújo foram presos, no dia 30 de abril, em operação do Ministério Público Estadual, sob a acusação de extorquir a cúpula do PCC.As escutas entregues a polícia indicam que os ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006 foram provocados por extorsões e seqüestros feitos por policiais a integrantes e familiares do grupo.

 

Alguns dias depois da prisão, Malheiros Neto pediu demissão. A queda dele se deve ao possível envolvimento dele com os dois policiais presos. Apesar de conhecer Pena, Malheiros negou qualquer envolvimento, e disse que se demitiu para se defender das acusações de que colaborou com o policial preso, feitas pelo delegado Nelson Silveira Guimarães.

 

3/6/2008 - A Máfia do Detran

A Máfia da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) começou a ser investigada em março de 2008. O Departamento de Trânsito (Detran) de São Paulo começou a fazer uma malha fina, bloqueando a habilitação de 19 mil motoristas do Estado e investigando 200 auto-escolas suspeitas de fraudes para obtenção e renovação das CNHs na região metropolitana da capital. A quadrilha por trás da máfia foi desbaratada pela Operação Carta Branca. Foram presas 19 pessoas acusadas de envolvimento da máfia, que conseguia habilitação até mesmo para analfabetos. Depois disso, dois delegados e um corregedor do Detran caíram.

 

O chefe da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Ferraz de Vasconcelos, delegado Fernando José Gomes, foi preso, acusado de também estar envolvido com a máfia. O Detran também anunciou o afastamento de 14 delegados de Ciretrans da Grande São Paulo e da Baixada Santista. A máfia pagava propinas para manter corrupção que fornecia habilitações para motoristas de todo o País. Os motoristas que compraram as CNHs também serão investigados e podem ser presos.

 

Setembro a novembro de 2008 - Greve da Polícia Civil

Policiais civis fizeram a mais longa greve da categoria, que começou no dia 16 de setembro de 2008. Uma decisão do STF, no dia 12 de novembro, determinou que os policiais voltassem ao trabalho. No entanto, mesmo após a publicação da decisão, nem todas as delegacias voltaram a atender ao público.

 

Os policiais pediam aumento de 29% até 2010, enquanto o governo oferecia 27,9% para o piso salarial dos delegados. Após várias negociações e conflito entre policiais, a base governista da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo aprovou o primeiro relatório dos quatro projetos de lei que propõem aumento de 6,5% e reestruturação da carreira dos policiais civis.

 

16/10/2008 - Choque das Polícias

Em meio à tensão provocada pela mais longa greve da Polícia Civil, policiais civis e militares entraram em conflito próximo ao Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, no dia 16 de outubro de 2008. O confronto começou quando a PM barrou a passagem de uma passeata dos policiais civis rumo ao Palácio do Bandeirantes, sede do governo estadual. Houve tiroteio e algumas pessoas saíram feridas, entre elas o coronel Antão, um dos negociadores da greve, que foi levado ao Hospital Albert Einstein.

 

Alguns dos feridos foram levados ao Einstein, perto do palácio, e outros ao Hospital São Luís, também próximo ao local do confronto. Os manifestantes teriam se exaltado quando receberam a notícia que não seriam recebidos pelo governador José Serra (PSDB) para negociar a greve. Serra estava no palácio desde o início da tarde, conforme a assessoria de comunicação do palácio.

 

7/12/2008 - Verba secreta

O dinheiro para operações policiais reservadas foi usado para finalidades que não eram sigilosas nem operacionais. Esse seria o caso da compra de equipamentos para o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), de fuzis para o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) sem licitação e até de CDs para divulgar dados de criminalidade. Quem afirma que o dinheiro foi gasto com esses equipamentos é Elaine Ramos Mansano, ex-assessora especial do secretário Saulo Abreu.

 

O uso dessa verba para a compra de materiais que não

eram sigilosos nem para operações policiais é considerado irregular, já que a compra deveria ser feita por meio de licitação. 
Quem efetuava os saques era um auxiliar de gabinete, em nome de quem eram
feitos os cheques. Trata-se de Carlos Jorge Santana, o Jorginho.  Ele também
fez isso nos primeiros 15 meses da gestão de Ronaldo Marzagão, quando o
chefe de gabinete era Tadeu Sérgio Pinto de Carvalho.

 

A Corregedoria-Geral da Administração do Estado fez uma busca no gabinete da SSP, em março de 2008. Ela investigava as despesas feitas por meio de adiantamento da verba de operações reservadas.A Casa Civil confirmou a existência de irregularidades na chefia de gabinete da secretaria. Em meio às investigações, o então chefe de gabinete da secretaria, Tadeu Sérgio Pinto de Carvalho, foi exonerado.

 

Fevereiro de 2009 - Venda de cargos na polícia

O ex-secretário adjunto da Secretaria de Segurança Pública, seu ex-sócio e chefes das polícias de São Paulo estariam envolvidos em um suposto esquema que vendia cargos e sentenças favoráveis a policiais. O investigador Augusto Pena - preso na Penitenciária 2 de Tremembé - aceitou fazer delação premiada e depôs ao Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Assumiu achaques à cúpula do Primeiro Comando da Capital e entregou esquemas de corrupção para compra de decisões em processo administrativos para absolver policiais corruptos. Assinadas por Malheiros Neto, as decisões eram tomadas em nome do secretário Ronaldo Marzagão.

 

Um cargo no Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) valia R$ 200 mil ou R$ 300 mil. Uma absolvição em processo administrativo saía por R$ 100 mil. Os valores constam de um vídeo de 1 hora, 3 minutos e 45 segundos de duração feito de maneira amadora por um investigador e seu advogado, em outubro de 2007. Eles gravaram a conversa que tiveram com o advogado Celso Augusto Hentscholer Valente, ex-sócio e responsável pela manutenção do escritório de advocacia de Lauro Malheiros Neto, à época no cargo de secretário adjunto.

 

Malheiros Neto pediu afastamento da secretaria em maio de 2008, após denúncias de ter supostamente beneficiado o investigador Augusto Pena. Preso por achaques contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), Pena recebeu o direito à delação premiada e tem feito uma série de acusações de corrupção policial.

 

Março de 2009 - Highlanders

Um grupo de policiais militares é acusado pela Polícia Civil de integrar o grupo de extermínio batizado de "Highlanders", acusado de execuções em Itapecerica da Serra. Dez integrantes do grupo foram denunciados pelo Ministério Público de São Paulo.

 

O grupo seria formado por 14 policiais militares do 37º Batalhão e é acusado de obrigar menores infratores a roubar para a organização criminosa na região do Capão Redondo, zona sul. Eles também foram denunciados pela prática de extorsões a traficantes de drogas e procurados pela Justiça.

Segundo denúncias feitas à Delegacia Seccional de Taboão da Serra, o grupo de extermínio, conhecido como "Os Highlanders" por decapitar pelo menos quatro rapazes em 2008, alicia ex-internos da antiga Febem. Os menores são obrigados a roubar. Quem desobedece recebe ameaças de morte e espancamento.

 

Um adolescente teria apanhado tanto que perdeu um rim. Os PMs foram acusados de humilhar outro menor e escreveram, nas nádegas dele, palavras ofensivas e "PCC", iniciais da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. Uma testemunha protegida pela Justiça acusou os PMs de extorquir traficantes, principalmente no Jardim Imbé. Num trecho do depoimento, a testemunha afirmou que o sargento Takiguti, um dos acusados de pertencer ao grupo de extermínio, é o "terror das biqueiras" (ponto de venda de drogas). Outro trecho diz que o sargento Cegatte prendia os procurados e os liberava mediante pagamento de propina.

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