Maria Adelaide Amaral, a escritora do ''ti-ti-ti''

Autora da próxima novela das 19h, essa portuguesa que diz ter uma relação visceral com São Paulo dá jantares concorridíssimos e adora caminhar por aí

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

A dramaturga Maria Adelaide Amaral precisa de silêncio para escrever. Mas não só. Precisa também matutar em grandes caminhadas, receber amigos em pequenos jantares, comer em bons restaurantes, frequentar salas de concerto e ir aos melhores espetáculos de teatro. Como não consegue se imaginar fazendo isso em outra cidade, deduz-se, em uma conversa com ela, que Maria Adelaide Amaral precisa de São Paulo para tudo.

"Ti-ti-ti (a próxima novela das 19h) não poderia se passar em outro lugar. Tenho uma relação visceral com a cidade, ela está na minha cabeça, nas referências afetivas. Além do mais, o gancho é moda, e a indústria da moda está aqui", diz ela, que ficou conhecida por minisséries como Dalva e Herivelto (2010), Queridos Amigos (2008) e JK (2006). Escreveu também a segunda versão de Anjo Mau.

Ti-ti-ti é um remake da novela escrita em 1985 por Cassiano Gabus Mendes. Remake, não. Segundo ela, trata-se de uma reinvenção completa. "De lá para cá, mudou tudo. O Jacques Leclair (interpretado antes por Reginaldo Faria e, agora, por Alexandre Borges) era costureiro, o que em moda praticamente não existe mais. Hoje, é estilista."

Como, então, trazer o personagem para 2010? Simples: "Ele vai fazer vestidos de noiva e para festas de 15 anos, que agora são verdadeiros eventos. A Glorinha Kalil me contou que existem feiras especializadas em casamentos. Uma das maiores é na zona leste, onde o Jacques mora." O rival de Leclair, Victor Valentín, antes interpretado por Luiz Gustavo, volta na pele de Murilo Benício.

No silêncio de seu apartamento, em Higienópolis, um dos bairros mais exclusivos na região central de São Paulo, a dramaturga diz que o núcleo rico da novela vai morar bem longe dali. "Gosto de colocar meus ricos onde muita gente nem imagina que haja tanto dinheiro. Alto da Mooca, Jardim Anália Franco, Tremembé..."

Maria Adelaide morou na Mooca, mas, diz ela, "na parte popular". Nascida em Alfena, Portugal, desembarcou com a família no bairro aos 12 anos, há mais de 50. Depois, mudou-se para Vila Olímpia, Sumarezinho e, mais tarde, a Rua Albuquerque Lins - "que não é Higienópolis, é Santa Cecília", brinca. Hoje, mora perto da Praça Vilaboim, no coração do bairro.

Origens. Seu Jacques Leclair é fiel à zona leste. "Ele sonha ter uma butique na Oscar Freire, mas não pretende morar lá. Quer mostrar prestígio, sem abandonar as origens." Até onde tem controle do que chama de criação em escala industrial, Maria Adelaide, que trabalha com cinco assistentes na novela, procura certificar-se de que São Paulo está minimamente preservada em Ti-ti-ti. "Peço aos meninos que evitem aquele chiado carioca."

Para explicar um pouco como os diálogos lhe veem à cabeça, ela cita Arthur Miller, um de seus escritores prediletos. "A gente tem de ouvir os personagens." Ela costuma ouvir os da novela em longas caminhadas. É a favor da ocupação do espaço público pelo morador. Se o filme está em cartaz em um cinema na Paulista, vai a pé. Passeios ao centro e arredores, idem. Andar é uma das poucas coisas que ela prefere fazer sozinha.

Mas, na maior parte do tempo, agrega. Conhece Deus e o mundo. Na entrevista, de repente, sai um nome conhecido (sem o sobrenome): Tônia, Costanza, Dráuzio, Nirlando, Telmo, Dercy.

A psicoterapeuta Lídia Aratangy, que pelo menos uma vez por semana a acompanha em jantares no La Frontera ou no Carlota, em Higienópolis, diz que Maria Adelaide "está se divertindo muito com a novela". "Essa é a vantagem de ser íntima da autora: você sabe tudo antes", afirma Lídia, que há 20 anos é "amiga de infância" da dramaturga.

Irene Ravache, outra muito próxima, é vizinha de bairro. "Fomos apresentadas há mais de 20 anos, pelo Lauro César Muniz. Produzimos três espetáculos juntas (entre eles, De Braços Abertos). Outro sucessos de Maria Adelaide no Teatro são Mademoiselle Chanel e Bodas de Papel.

Frequentadoras dos famosos (e restritos a poucos) jantares que Maria Adelaide oferece, tanto Lídia quanto Irene dizem que só indo lá para entender por que são imperdíveis. "A comida, as pessoas, a conversa, é tudo muito bom", diz Irene.

Por prudência, a dramaturga, que faz 68 anos na quinta, aprendeu a controlar impulsos em entrevistas. Às vezes, enguiça. "Não, não e não." Ela não vai falar de política. Diz que tem amigos "nos dois lados". Como todo mundo que levantou bandeiras nos anos 70, ela hoje parece confusa na hora de estabelecer o que é direita e esquerda. "Você faz umas perguntas muito específicas. Respondo quando acabar a novela." A estreia é no dia 19.

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