Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Marginal tem 1 morte a cada 600 metros

Chance de paulistano morrer nas vias expressas é três vezes maior do que nos demais corredores viários monitorados pela CET

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 17h41

O paulistano tem três vezes mais chance de morrer em um acidente de trânsito nas pistas das Marginais do Tietê e do Pinheiros do que em todos os demais corredores viários da cidade. Cruzamento de informações de dois relatórios da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), de acidentes fatais e de volumes e velocidades do sistema viário, mostram que, nas Marginais, no ano passado, aconteceu uma morte a cada 0,6 quilômetro de pista. Na soma dos demais corredores, a taxa é de uma morte a cada 2,1 quilômetros.

Reduzir a letalidade acentuada das Marginais é a justificativa da gestão Fernando Haddad (PT) para diminuir, desde a segunda-feira passada, a velocidade nas duas vias, com limite de 50 km/h nas pistas locais, 60 km/h nas centrais e 70 km/h nas vias expressas.

A medida, entretanto, corre o risco de cair já no começo desta semana. A Justiça analisa representação feita pela seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), que ingressou com uma ação contra o novo limite de velocidade. A Prefeitura deve apresentar amanhã uma resposta às considerações da Ordem.

As Marginais registraram 73 mortes em 2014, das quais 48 vítimas estavam em veículos e 25 foram atropeladas. Nas outras 40 rotas monitoradas pela CET para contagem de trânsito aconteceram 379 mortes. Elas e as Marginais têm, no entanto, condições diferentes de via: nas Marginais o trânsito mistura veículos leves e de carga e não há semáforos. Nas demais vias, além da predominância de carros, há sinais de trânsito e muitos pedestres.

Estudos. A origem da atual redução da velocidade é um estudo feito pela CET em fevereiro deste ano, em que o órgão avalia a redução de velocidade implementada em 2011, na gestão Gilberto Kassab (PSD). 

“Do total de 16 eixos, compostos por 88 vias arteriais envolvidas no programa, a análise dos acidentes registrados no período de um ano após as alterações de velocidade mostrou redução média de 5% na comparação com igual período de um ano antes. No segundo ano, a redução dos acidentes foi de 2%. No terceiro ano após as medidas de redução de velocidade, tivemos um decréscimo de 7% nos índices de acidentes naquelas vias, o que representou 88 acidentes com vítimas e 227 atropelamentos a menos. Os dados permitem considerar que as medidas surtiram efeito bastante positivo”, diz trecho do estudo.

Análises. Entre as críticas feitas à medida adotada pela gestão Haddad está o fato de a redução dos limites de velocidade não vir acompanhada de outras soluções para evitar as mortes no trânsito da capital. “Há uma série de medidas que devem ser tomadas”, diz Luiz Célio Bottura, ex-ombudsman da CET. Ele destaca a ação mais efetiva adotada até o momento: a campanha de proteção ao pedestre desenvolvida até 2012 – e abandonada pela atual gestão. De 2013 para 2014, sem a campanha, as mortes cresceram 8,4% na cidade, segundo ele.

O principal ponto do programa era o uso de orientadores de trânsito em cruzamentos importantes da cidade. Eles organizavam a travessia do pedestre e orientavam os motoristas. “A discussão sobre trânsito está voltada para o imediatismo da redução da velocidade nas Marginais”, diz Bottura, ao destacar que medidas complexas têm resultados mais efetivos.

A professora Silvana Zioni, do Centro de Engenharia da Universidade Federal do ABC, compara o sistema viário da cidade a um circuito elétrico. “O que está sendo feito (a redução do limite de velocidade) é baixar a tensão de forma a haver uma operação mais segura”, afirma.

Segundo a pesquisadora, embora as Marginais tenham sido pensadas como vias expressas, ao longo dos anos elas foram ganhando função de avenidas. “São Paulo tem diversos casos em que a via não desempenha a função para a qual foi criada. Pegue a Heitor Penteado (na zona oeste). Ela deveria ter pista dupla, com canteiro central, porque liga diversos bairros. Mas não é assim. A via teve de ser adaptada. Com as Marginais, é a mesma coisa.”

Para ela, São Paulo está, com as Marginais, no mesmo caminho de outras localidades. “As cidades estão buscando soluções que vão na linha da redução da velocidade máxima dos automóveis”, diz.

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