Maré: 2 mortos não tinham passagem

Garçom de 35 anos e engraxate de 16 estão entre as dez vítimas baleadas durante operação da polícia no complexo, no Rio, anteontem

MARCELO GOMES, RIO, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2013 | 02h13

Dois dos nove civis mortos na operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) no Complexo da Maré, na zona norte do Rio, anteontem, não tinham antecedentes criminais: o garçom Eraldo dos Santos da Silva, de 35 anos, e o engraxate Jonatha Farias da Silva, de 16. O sargento do Bope Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, de 42 anos, também morreu na ação, com um tiro na cabeça, supostamente disparado por traficantes.

As outras sete vítimas tinham passagens, segundo a Polícia Civil. André Gomes de Souza Júnior, de 18 anos, tinha registro por furto. Fabrício Souza Gomes, de 28, tinha três passagens por homicídio, além de tráfico, porte de arma e lesão corporal. Contra ele havia mandado de prisão temporária. Carlos Eduardo Silva Pinto, de 23, tinha anotações por tentativa de homicídio, roubo de veículo e lesão corporal. Ele também aparece como vítima de uma tentativa de homicídio em 2012.

José Everton Silva de Oliveira, de 21 anos, tinha passagens por porte ilegal de arma e roubo seguido de morte, quando era menor. Ademir da Silva Lima, de 29 anos, tinha uma anotação criminal por tráfico de drogas e associação ao tráfico, também quando era menor. Como maior de idade, tinha passagens por homicídio, roubo e furto. Renato Alexandre Mello da Silva, de 39 anos, tinha sete passagens por roubo, uma por tráfico, uma por furto e uma por porte de droga. Já havia cumprido pena no sistema carcerário.

Roberto Alves Rodrigues tinha três passagens por furtos e outra por roubo.

Facadas. Representantes de dez associações de moradores e de ONGs da Maré se reuniram ontem com o coronel Hugo Freire, chefe do Comando de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar - a quem o Bope é subordinado. O encontro foi marcado após a comunidade acusar PMs de terem executado a facadas pelo menos três pessoas dentro de suas casas, para vingar a morte do sargento da tropa de elite.

Equipes da Corregedoria Interna da PM também participaram da reunião e receberam denúncias detalhadas de moradores. Um inquérito policial militar (IPM) foi instaurado para averiguar a conduta dos policiais. "Tentávamos marcar essa reunião com a polícia desde 2007, e a repercussão do episódio de segunda e terça-feira ajudou. A polícia decidiu abrir um canal com a comunidade, para discutirmos juntos uma agenda propositiva para a segurança na Maré. Atualmente, há grande desconfiança entre policiais e moradores. O objetivo é mudar esse quadro", explicou Eliana Sousa e Silva, diretora da ONG Redes da Maré.

O delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios (DH), informou ontem que alguns PMs que participaram da operação na Maré já foram ouvidos. Ele aguarda o resultado dos laudos da perícia do local.

Segundo o delegado, peritos legistas apontaram que nove corpos tinham marcas de tiros e não apresentavam ferimentos por facas. A Polícia Civil não comentou se o décimo corpo tinha ferimentos de facadas. As armas utilizadas pelos PMs foram apreendidas para exames de confronto balístico. O objetivo é descobrir se os tiros que atingiram as vítimas do confronto foram disparados pelos policiais ou por traficantes de drogas.

Denúncias. O secretário de Segurança do Estado do Rio, José Mariano Beltrame, cobrou nessa quarta-feira a apuração de denúncias de excessos cometidos pelo Bope, e também do autor do assassinato do sargento da tropa de elite. "Essas coisas têm que ser apuradas. A especulação não faz bem a ninguém. Mas, assim como tem que apurar se houve excesso, tem que apurar quem matou o sargento. O excesso não é a lógica da polícia", disse, em entrevista à Rádio CBN.

Três dos cinco baleados no confronto permaneciam internados em observação no Hospital Federal de Bonsucesso, nessa quarta-feira: Robson Maceió Guimarães, de 40 anos, foi ferido na barriga; Wagner de Lima Marinho, de 23, na virilha; e Alessandro de Oliveira, de 33, no ombro.

A Polícia Militar divulgou nas redes sociais imagens feitas a partir do helicóptero da corporação de homens armados circulando na Favela Nova Holanda no dia do confronto.

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