Marco americano no Brasil precisa de ajuda

Cemitério de soldados da Guerra de Secessão e de seus descendentes está fechado desde outubro em Santa Bárbara d'Oeste

RICARDO BRANDT , ESPECIAL PARA O ESTADO , SANTA BÁRBARA DOESTE, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2012 | 03h03

Um patrimônio da história da imigração americana no Brasil precisa de reparos. O Cemitério dos Americanos, em Santa Bárbara d'Oeste (SP) está fechado ao público desde outubro, quando um temporal derrubou árvores e lápides dos túmulos. As visitas estão suspensas e, pela primeira vez em 26 anos, a tradicional Festa Confederada teve de ser cancelada em abril.

Marcos que resgatam a chegada dos americanos ao Brasil, após o fim da sangrenta Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos, estão ali guardados. Um deles é o túmulo do coronel William Hutchinson Norris, oficial do exército confederado, senador pelo Alabama e figura central na saga da imigração americana ao País no século 19.

A partir de um encontro dele (chegado em 27 de dezembro de 1865) com o imperador d. Pedro II começou o grande fluxo de americanos ao Brasil - cerca de 2,7 mil pessoas, a maior corrente migratória da história dos EUA. O monarca brasileiro tinha grande interesse na vinda dos americanos pelo conhecimento que tinham com o cultivo do algodão.

No Cemitério dos Americanos, há um obelisco com a bandeira dos Estados Confederados e os nomes das 96 famílias de ex-combatentes da guerra civil que vieram ao Brasil e foram enterradas ali. Mais de 600 mil soldados morreram na Guerra de Secessão. Atualmente, estão enterradas no cemitério cerca de 500 pessoas, entre os primeiros americanos que chegaram ao País e seus descendentes, segundo a Fraternidade Descendência Americana (FDA), entidade que cuida do local desde 1954. Como é tradição, estão com os pés para o leste e a cabeça para o oeste.

Com a forte chuva que atingiu o local em outubro, muitas lápides caíram e, com a força do vento, quebraram em pedaços. Alguns familiares já remendaram muitas delas, deitando sobre o túmulo as placas brancas e pretas que antes ficavam cravadas em pé na cabeceira dos jazigos. Outras foram atingidas por árvores e galhos. O piso, que já era problemático por causa da inconstância do solo, ficou ainda pior. "Está muito perigoso andar por aqui, principalmente para crianças em visitas monitoradas com escolas", explica o vice-presidente da FDA, João Leopoldo Ferreira Padovese. Há risco de queda de árvores, marcadas com fita para terem sua remoção aprovada pela comunidade.

Religião. Outro marco da imigração do sul dos EUA presente no Cemitério dos Americanos é a primeira capela protestante erguida no Brasil. Datada de 1878, atendia as Igrejas Presbiteriana, Batista e Metodista. O prédio atual, que também precisa de reformas, foi feito em 1962.

"Como o solo é muito inconstante, ele já teve de ser reconstruído três vezes. Agora, está novamente precisando de reparos", conta Rose May Dodson Trochmann, 2.ª secretária de FDA. Pelo menos 50 de seus ancestrais confederados estão enterrados ali.

No local, ainda estão túmulos de antigos proprietários da terra. Recém-chegada ao Brasil, a esposa do coronel Asa Thompson Oliver, Beatrice Oliver, morreu de tuberculose e, como era tradição no sul dos EUA, foi enterrada na fazenda em julho de 1867. Pouco tempo depois, morreram também suas duas filhas, Inglianna e Lildredd Oliver, também vítimas de tuberculose.

Os cemitérios na época pertenciam à Igreja Católica, que só permitia enterro de quem era católico. A proibição do sepultamento de uma criança (Henry Bankston) no cemitério da Vila de Santa Bárbara causou revolta na comunidade. O coronel Oliver decidiu então ceder um hectare de suas terras para enterros de compatriotas. Surgia ali o Cemitério dos Americanos.

O coronel Oliver morreu em 1873, assassinado a enxadadas por um escravo flagrado por ele roubando batatas de sua roça. Seu corpo foi enterrado ao lado da mulher e das filhas. Após sua morte, as terras foram vendidas à família Bookwalter, com a condição de preservar o cemitério.

Está enterrado ali também um tio-avô da mulher do ex-presidente americano Jimmy Carter. Em 1972, quando era governador da Geórgia, Carter e a mulher, Rosalyn, visitaram o cemitério. Quatro anos depois, ele virou presidente.

Os ancestrais da cantora Rita Lee (família Jones) também estão enterrados no Cemitério dos Americanos. Um dos livros mais completos sobre a vinda dos confederados - Soldado descansa -, aliás, foi escrito por uma tia de Rita, Judith MacKnight Jones.

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