Marcas persistem 1 ano após tragédia

Nova família retoma vida no local do crime; vizinhos se queixam da ‘fama’

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2009 | 09h17

As paredes foram todas pintadas - amarelo-queimado nos dois quartos, verde-claro na sala, branco no único banheiro. Na cozinha, os azulejos foram trocados pela primeira vez desde a construção, em 1999. Camas, mesa, cadeiras, quadro na parede, todas as peças domésticas também são diferentes, a indicar ocupação recente. Mas há uma marca na porta do quarto - a fechadura torta, aparentemente forçada - que teima em denunciar que algo errado aconteceu ali.

 

LUGAR MARCANTE - Janela do apartamento onde Eloá foi filmada pedindo calma:

nova ocupante do imóvel trocou as cortinas e evita aparecer ali

 

A peça danificada num dos quartos do apartamento - número 24, bloco 24 do CDHU Jardim Santo André, em Santo André, no ABC paulista - é a única marca visível do que aconteceu na antiga casa da adolescente Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos, onde ela foi mantida refém pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, por quase cinco dias, e depois assassinada com um tiro na cabeça, em 18 de outubro de 2008. Exatamente um ano depois, porém, para pessoas que a conheciam, e mesmo quem participa da história por acaso, como a moradora atual do apartamento, as marcas continuam palpáveis.

 

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Após ter ficado seis meses vazio, o antigo apartamento de Eloá foi reocupado em abril, pela família da dona de casa Daniela Cristina de Souza, de 25 anos. É ela quem apresenta os cômodos, avisando que "tudo mudou". "Mas não tem como não lembrar daquilo, as pessoas perguntam, querem saber como é", conta Daniela, ex-moradora da Favela do Lamartine, também em Santo André. "Mas não sinto ‘peso’ na atmosfera. Para quem sofreu o que sofri, esse lugar é um pedaço do céu."

 

Em outubro de 2008, enquanto Eloá e a amiga Nayara eram mantidas reféns, Daniela vivia seu próprio drama. Numa noite de chuva, uma barreira desabou em cima do barraco em que ela, o marido e o filho de 6 anos viviam e destruiu todos seus pertences. "Não sei como não morremos. Só o quarto em que estávamos ficou inteiro." Por mais que aceitasse na hora a oferta de funcionários da CDHU, ela sabia que a nova morada não seria comum. Soube logo no primeiro dia, quando apareceu na janela da cozinha - a mesma janela em que Eloá aparecia, fazendo sinal para que todos se acalmassem. "Um menino apontou e chamou todos para ver. Por isso, apareço pouco na janela. Até troquei as cortinas, para diferenciar."

 

A família de Eloá ainda reluta em falar sobre o assunto. As marcas são nítidas. Na frente da nova casa da família - um sobrado verde-claro também financiado pela CDHU, dois quilômetros distante do antigo apartamento -, o irmão mais novo de Eloá, Douglas, de 15 anos, disse estar pensando em mudar de colégio. "Não gosto de ser conhecido como ‘irmão da Eloá’ na escola, e é só como me chamam", contou. "Ninguém quer ser lembrado por uma tragédia." A mãe, Ana Cristina Pimentel, lactarista de uma creche municipal, tenta retomar a rotina. Voltou a trabalhar em agosto e toma cada vez menos tranquilizantes. E a insônia, segundo Douglas, passou.

 

A adolescente Nayara Rodrigues, de 16 anos - melhor amiga de Eloá e que, também sequestrada, levou um tiro no rosto de Lindemberg -, mudou de colégio. Estuda agora numa escola particular, fala cada vez menos com a família de Eloá e, segundo a mãe, Andréia, não concede entrevistas para "não mexer em feridas não cicatrizadas".

 

Nos arredores do bloco 24 do Jardim Santo André, as marcas de que a tragédia não será esquecida se manifestam em pichações nos muros - "quem ama não mata", por exemplo - e em constante antipatia pela imprensa. "Todo entregador de pizza novo pergunta se é a casa da Eloá", disse um dos vizinhos. "Por toda exposição, acho que nunca seremos esquecidos."

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