Maranhão paga R$ 1,5 mi e é tema da Beija-flor

Diretor da agremiação nega que desfile será político, mas admite amizade com Roseana Sarney e diz que prefeito, da oposição, é persona non grata

LUCIANA NUNES LEAL / RIO, VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h09

Com o caixa reforçado por R$ 1,5 milhão do governo maranhense, a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis vai falar de princesas, índios, serpente encantada, holandeses, bumba meu boi e Joãosinho Trinta no enredo São Luís, o poema encantado do Maranhão. Só a política vai ficar de fora, apesar do patrocínio da governadora Roseana Sarney (PMDB). O governo reconheceu o pagamento oficial à agremiação, mas outros gastos ainda estão nebulosos, como as viagens de integrantes da escola ao Maranhão e de maranhenses ao Rio.

"Algum dia você viu a Beija-Flor falar de política? Vocês querem é chegar no Sarney", diz o diretor de Carnaval e Harmonia da escola, Luiz Fernando do Carmo, o Laíla.

Convidada especial da escola, Roseana ainda não confirmou presença na Sapucaí. Uma ausência é garantida: a do prefeito da capital, João Castelo (PSDB), adversário da família Sarney. Castelo é persona non grata na Beija-Flor. "Ele é contra a governadora, não gostamos dele. A Beija-Flor tem ódio dele", diz Laíla. "Não quero conhecer, não quero falar. Ele é oposição." O prefeito diz que está voltado para a festa em sua cidade. "Não conheço este senhor (Laíla). Desconheço a razão de tamanha hostilidade."

O domínio de mais de 40 anos da família Sarney, sob o comando do ex-governador, ex-presidente da República e atual presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP), estará longe do desfile, mas a política está por todos os lados. Em outubro, a governadora visitou o barracão da escola, no Rio. Dois dias antes, a Secretaria de Turismo do Maranhão transferiu R$ 1,5 milhão à agremiação, como investimento para "promoção e divulgação do produto turístico maranhense".

No dia 27 de setembro, o secretário Jurandir Ferro publicou no Diário Oficial do Estado o termo que atestava não ser necessária licitação para o repasse.

Líder da oposição na Assembleia Legislativa maranhense, o deputado Marcelo Tavares (PSB) vai pedir detalhes do convênio. "Sou contra esse pagamento, é um desperdício."

Intercâmbio. Para badalar o Maranhão no carnaval no Rio, a Secretaria de Cultura do Estado organizou, no ano passado, um festival de samba-enredo de compositores locais. Carnavalescos da Beija-Flor participaram do júri em São Luís. No ano-novo, a bateria da escola foi uma das atrações da festa da capital.

Laíla se recusa a falar de dinheiro. "Vocês querem entrar na área que não compete a mim", diz ele, subordinado apenas ao presidente de honra, o bicheiro Aniz Abraão David, preso há um mês pela Polícia Civil do Rio, e ao presidente, Nelsinho David, sobrinho de Anísio.

Há um mês, na Operação Dedo de Deus, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, mandou prender o bicheiro. Uma tropa de elite desceu de rapel de helicóptero na cobertura de Anísio, em Copacabana. Os policiais estiveram também no barracão da escola. Sarney demonstrou insatisfação com os danos à imagem da escola causados pelo que chamou de "pirotecnia" da ação policial.

Ontem, em reunião com membros do Colégio Nacional de Segurança Pública, na qual participaram Beltrame e Sarney, o secretário levou uma proposta sua de criminalização do jogo do bicho, tipificada hoje apenas como contravenção. Escaldado, Sarney não entrou no mérito.

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