'As manifestações contra a tarifa são válvulas de escape'

As manifestações atuais refletem o desconforto de uma geração que teve ampliadas as oportunidades de acesso ao ensino médio e superior, mas que encontra um mercado de trabalho restrito e frustrante sob o ponto de vista salarial e de condições de trabalho. Essa é a análise do professor de Sociologia Marcelo Ridenti, da Unicamp. Os protestos, em sua opinião, são como válvulas de escape e têm mais a ver com esse desconforto.

Entrevista com

MARCELO BERABA / RIO, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h02

Como analisa as manifestações contra a tarifa?

Tenho uma intuição, mas não é fruto de pesquisa. Tem aumentado muito nos últimos anos o número de jovens mais ou menos intelectualizados, resultado de um aumento grande na conclusão do ensino médio e do aumento do acesso ao ensino superior, especialmente o privado. Isso causa nessa juventude certo desconforto. São milhões que de algum modo vão buscar em algumas causas coletivas que aparecem, como o movimento para impedir a derrubada do Museu do Índio no Rio e esses movimentos contra a tarifa, válvulas de escape para expressar um certo desconforto com a situação deles na sociedade. Um desconforto de um lado econômico e de outro ético e existencial.

O que seria esse desconforto econômico?

Embora muita gente tenha concluído o colegial e entrado na faculdade, o lugar para os jovens no mercado é muito restrito. E, quando conseguem uma colocação, acabam se sujeitando a condições de trabalho que não combinam com as promessas de ascensão social pelo estudo. Isso gera um desconforto que tem laços também éticos e existenciais.

Como assim?

Há um excesso de valorização da posse de mercadoria e pouco espaço para a socialização em comunidade. Há uma massa de jovens que está em busca de causas coletivas. Porque vivemos uma época de um individualismo muito exacerbado.

É possível um paralelo com as manifestações dos anos 60 e 70?

A agitação dos anos 60 e 70 combinou com um momento de modernização da sociedade e de ampliação do acesso ao ensino, que foi restrito, mas que gerou manifestações ligadas ao combate à ditadura. Ultimamente, tem havido uma retomada do desenvolvimento e uma ampliação impressionante de vagas no ensino. A minha intuição sociológica é de que é menos a passagem de ônibus e mais a manifestação de desconforto dessa nova geração que não está encontrando um lugar muito claro na sociedade.

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