Maníaco de Guarulhos nega crime e MP quer condenar 3 jovens

Policiais descartam tortura, mas caem em contradição; delegado do caso diz que réus são integrantes do PCC

Bruno Tavares, de O Estado de S. Paulo,

18 de novembro de 2008 | 21h51

O Ministério Público Estadual (MPE) decidiu pedir a condenação dos três rapazes acusados de matar Vanessa Batista de Freitas, de 22 anos, em agosto de 2006. Renato Correia de Brito, de 24 anos, William César de Brito Silva, de 28, e Wagner Conceição da Silva, de 25, começaram a ser julgados nesta terça-feira, 18, no Tribunal do Júri de Guarulhos, na Grande São Paulo. Eles foram presos logo após o crime, mas acabaram soltos em setembro deste ano, depois que Leandro Basílio Rodrigues, apelidado pela polícia de Maníaco de Guarulhos, confessou o homicídio. Na ocasião, diante das suspeitas de que os três haviam sido torturados para confessar o assassinato, o então promotor do caso, Marcelo Alexandre de Oliveira, se manifestou pela soltura dos envolvidos. A previsão é que os trabalhos só sejam concluídos nesta quinta-feira.   Veja também: Vídeo reforça dúvidas sobre o caso     O depoimento mais aguardado do dia era o de Rodrigues. Diante das frágeis provas do processo, a banca de acusação, composta pelo promotor Levy Emanuel Magno e pelo assistente de acusação Eugênio Malavasi, esperava que ele repetisse perante os sete jurados o que havia dito em seu último interrogatório à Justiça. "Esse crime foi cometido por pelo menos duas pessoas. Como o maníaco diz que não praticou ato sexual e a vítima está toda arrebentada? Essa primeira versão dele não é crível", disse o promotor.   Dito e feito. Respondendo às perguntas do juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, Rodrigues voltou a dizer que confessou sob tortura. "Colocaram uma sacola no meu rosto, me bateram e fizeram ameaças", reafirmou. Os autores da suposta agressão, segundo ele, seriam o delegado Jackson César Batista e os investigadores Diniz e Dantas, todos do Setor de Homicídios de Guarulhos. Ele não soube dizer porque os policiais teriam lhe atribuído um crime que já estava solucionado e pediu para ser transferido da Penitenciária de Sorocaba, por estar sendo hostilizado pelos presos. À noite, o delegado Batista foi convocado para dar sua versão sobre a confissão de Rodrigues.   As três primeiras testemunhas ouvidas nesta terça foram policiais: dois PMs que atenderam a ocorrência no dia em que o cadáver de Vanessa foi localizado e o delegado responsável pela prisão em flagrante dos três rapazes. Tanto o sargento Richardson Alves de Alcântara quanto o soldado Ezequiel Mota negaram ter torturado os acusados para que eles admitissem o assassinato. Voltaram a dizer, por exemplo, que Renato teria oferecido R$ 20 mil para não ser preso. Mas caíram em contradição quando um dos advogados de defesa perguntou quem os recepcionou na chegada à casa de Renato. Enquanto o sargento Alcântara disse ter sido o pai (na verdade, o padrasto) de Renato, o soldado Mota afirmou que a primeira pessoa com quem a equipe conversou foi uma mulher, que ele supunha ser mulher do suspeito.   Os defensores também procuraram explorar a quilometragem da viatura em que os PMs estavam. De acordo com os relatos dos policiais, a distância entre a casa dos acusados e o 1.º DP de Guarulhos seria de aproximadamente 20 quilômetros. A perícia, no entanto, revelou que, naquele dia, o carro rodou 92 quilômetros.   Já o delegado Paulo Roberto Poli Martins abriu seu depoimento dizendo que não queria falar na presença dos réus, pois os três seriam integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). "Eles foram direto para a CDP (Centro de Detenção Provisória) 1 de Guarulhos e não para o 2, onde costumam ficar criminosos primários e acusados de crimes sexuais", afirmou. Questionado pelo magistrado se havia notado algum sinal de agressão aos acusados, Martins foi enfático: "Não havia nenhum sinal, o menor que fosse. Os três estavam 100% íntegros."   Martins deu detalhes ainda sobre o primeiro depoimento prestado pelos três rapazes na delegacia e criticou duramente a postura da primeira advogada dos acusados, Kátia Soares dos Reis Cardoso, que esteve na delegacia no dia em que os rapazes foram presos e acompanhou os depoimentos. "Só na pronúncia (quando os réus são oficialmente informados de que vão a júri popular), sete meses depois, é que ela disse ter visto alguém de joelhos sendo agredido no saguão (da delegacia). Por que não procurou a Corregedoria da Polícia Civil, a Ouvidoria, o Judiciário, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)?"   No início da noite, o presidente da seccional de Guarulhos da OAB, Airton Trevisan, foi chamado para esclarecer se Kátia havia ou não procurado a entidade. O advogado disse que, de fato, ela relatou o ocorrido, mas que a denúncia não havia sido formalizada. Até as 19 horas, 13 testemunhas de defesa ainda aguardavam para serem ouvidas. Só após o fim da fase de depoimentos é que o juiz poderá abrir os debates entre defesa e acusação. A expectativa é de que isso ocorra entre quarta e quinta-feira. 

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