Lourival Sant'Anna/Estadão
Lourival Sant'Anna/Estadão

Manari luta para frear evasão escolar

Cidade em Pernambuco melhorou seu IDH, mas manter crianças na escola é desafio

Lourival Sant'Anna, enviado especial, O Estado de S.Paulo - Atualizado às 17h05 - 21/08/2013

18 de agosto de 2013 | 02h04

MANARI (PE) - São 3 da tarde de quarta-feira. É hora da merenda na escola municipal onde Josean cursa o 4° ano, na zona rural de Manari, no sertão pernambucano. Mas o menino de 12 anos está dando milho para um cavalo, no sítio da família. "Não fui (à escola) hoje porque fui tanger gado", explica ele.

Há dez anos, Manari, 360 km a sudoeste do Recife, ficou em último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no Brasil. Agora, a cidade de 18 mil habitantes subiu 18 posições no ranking de 5.565 municípios brasileiros. Seu índice cresceu 65%, de 0,295, em 2000, para 0,487. Mas ainda é a única com desenvolvimento "muito baixo" (até 0,499) em Pernambuco.

A tarde na escola de Josean trocada pelo trabalho na roça revela em parte a dificuldade de Manari de evoluir ainda mais depressa. A taxa de matrícula nas escolas aumentou de forma muito expressiva, em todas as idades, mas o índice não foi melhor porque, a partir dos 15 anos, ainda houve forte evasão na década passada.

Entre 2000 e 2010, a fatia de crianças de 11 a 13 anos frequentando os anos finais do ensino fundamental saltou de 13,7% para 71,8%; já a de adolescentes de 15 a 17 anos com o fundamental completo subiu de 3,6% para 23,7%.

Nesta década, a tendência está mudando, e os índices de evasão estão caindo também entre os adolescentes. Mas, de acordo com os secretários de Educação e Assistência Social, diretores de escola e professores, os adolescentes que deixam a escola antes de concluir até mesmo o ciclo fundamental (9o ano) são aqueles cujos pais, talvez como os de Josean, veem o futuro dos filhos vinculado ao trabalho no campo.

 

Isso está mudando porque muitos adolescentes sonham com empregos urbanos, que requerem mais estudos. "Eu saí porque ia só para jogar, não estava ligando para a escola, só que estou arrependido para caramba", diz Bruno de Souza, de 18 anos, que estudou até o 6° ano, e saiu há três anos.

Ele não trabalha e é sustentado pelo pai, aposentado, e pela mãe, que recebe o Bolsa Família. "Esse lugar nosso aqui é fraco, agora, sem estudo, o cara se ferra, só arruma trabalho pesado", explica Bruno, que mora no povoado Serra do Exú, na zona rural de Manari. Ele pensa em voltar e acha que, se fizer até o 9° ano, pode arranjar emprego em um supermercado.

Josefa Verônica Silva, de 16 anos, é um exemplo da recente mudança geracional. Seus irmãos mais velhos, de 20 e de 18 anos, largaram a escola para ir trabalhar na agricultura. Josefa está no 2° ano do ensino médio, e tem planos de estudar medicina em Arcoverde, a 100 km de Manari. Ela tentará ter uma boa nota no Enem e ingressar com bolsa por meio do Sisu, programa do governo federal. Sua irmã Patrícia, de 10 anos, que está no 4° ano, promete seguir o exemplo dela.

Os profissionais de ensino sentem que o Bolsa Família, que exige frequência na escola e a caderneta de vacinação em dia, representa uma pressão sobre os pais para manterem seus filhos na escola. "Muitos frequentam a escola por causa do cartão cidadão (do Bolsa Família)", observa Edivonaldo Barros, diretor de uma escola municipal no povoado Sítio Minador. "O desafio é fazer com que eles queiram aprender", acrescenta Osman Almeida, diretor de duas escolas, no Sítio Salgado II e no Jirau, numa área rural bastante isolada.

Dos 14 professores da escola de Salgado II, apenas 2 não têm diploma superior, mas ambos estão fazendo graduação. Os 250 professores da rede são do quadro efetivo, e a maioria tem graduação, segundo o secretário da Educação, Antonio Hélio de Oliveira. "Os que não têm, estão fazendo." Muitos têm pós-graduação. Graças a convênios com universidades, há cursos em Manari e em Arcoverde. A prefeitura fornece o transporte e os professores, que ganham a partir de R$ 1.447, pagam o curso - R$ 210 o de graudação e R$ 170 a pós.

 

 

A escola de Salgado II foi escolhida para ser a referência de um projeto do Instituto Brasil Solidário, uma ONG de São Paulo, que instalou bibliotecas, computadores, quadras e hortas em cinco escolas de Manari. O fato de Manari ter ficado em último lugar no IDH em 2000 atraiu vários programas e verbas públicas.

A qualidade das instalações de toda a rede municipal melhorou com um projeto da prefeitura, chamado de "nucleação", que reduziu as escolas de 63 para 33. Salões precários, que misturavam turmas de diversas séries e não tinham sequer banheiros, foram fechados, e os alunos, transferidos para escolas maiores, novas ou reformadas e ampliadas. Barros conta que diminuiu a violência na escola que ele dirige (e onde estudou), depois que ela foi reformada e equipada. Os muros não são pixados e o ambiente parece tranquilo.

A concentração só foi possível com a melhora do transporte escolar. Manari recebeu quatro ônibus escolares novos no ano passado, e deve receber outros quatro este ano. Nas escolas da zona rural, onde as estradas estreitas e de terra não permitem a passagem de ônibus, o transporte ainda é feito por camionetes adaptadas com bancos na carroceria, os paus-de-arara. Os diretores de escola estimam que de 80% a 90% dos alunos vêm de transporte. A frequência média é de 86%, segundo a Secretaria da Educação.

O caso de Josean parece ser uma exceção: em geral as crianças ajudam os pais, mas no "contraturno", ou seja, quando não estão na escola. Eurides Oliveira, gari da prefeitura, conta que recebe R$ 322 do Bolsa Família, e vai inscrever dois de seus cinco filhos, de 13 e de 8 anos, no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), que paga R$ 25 por criança. O mais velho, que está no 3° ano, "já faz serviço maneiro, vende lanche", conta Eurides. "Mas dou conselho que ele estude, para arrumar uma coisa melhor."

O feirante e agricultor José Cícero, com 48 anos e 10 filhos, não recebe o Bolsa Família, apesar de tirar apenas R$ 500 por mês na feira, e o feijão ter "dado só para a semente este ano": "Botava papeis para lá e não dava certo. Me deu raiva. Tem coisa que é para uns e para outros não." Mesmo assim, ele mantém os filhos na escola. Adriano, de 11 anos, está no 5° ano. Estuda à tarde, e estava ajudando o pai na feira, na manhã de quinta.

Na escola estadual de Manari, a taxa de evasão é a mesma da reprovação: 6%. Na verdade, os alunos não são reprovados, apenas desistem. E um fator de desmotivação é a distorção da idade. Entre os jovens de 15 a 17 anos, apenas 6% estavam cursando o ensino médio regular sem atraso, em 2010. Já entre os alunos de 6 a 14 anos, 45% estavam na série correta para a idade. Em 2000, eram apenas 22% e, em 1991, 4%. Isso indica que a distorção de idade deve acabar, com o passar do tempo. Se eles continuarem na escola, Manari poderá dar mais um salto, no próximo IDH.

Tudo o que sabemos sobre:
manariidh

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.