Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O adereço mais usado neste carnaval é o celular. Com o aparelho em mãos, o folião tem compartilhado sua experiência carnavalesca em fotos, vídeos e, principalmente, transmissões ao vivo. Em vez das máscaras e das vantagens do anonimato, a regra parece ser a da máxima exposição. “Não é mais como assistir pela televisão ou apenas seguir um bloco ou trio elétrico. Não é uma relação fria. É um jeito de vivenciar o carnaval de forma intensa. Hoje, a gente é protagonista da festa”, afirma a publicitária Indrya Nieri, de 22 anos. 

Os maiores blocos do Brasil já entenderam o potencial da relação entre redes sociais e o sucesso nas ruas. O Casa Comigo (que arrastou mais de 300 mil pessoas com ele) já tem um esquema “profissional” para a transmissão dos seus cortejos, com fotógrafos e produtores postando e alimentado Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e Snapchat ininterruptamente. 

Segundo dados do próprio Facebook, mais de 500 mil pessoas já confirmaram presença nas páginas dos bloquinhos de São Paulo, que saem até terça-feira. São também dos blocos de carnaval algumas das fotos mais curtidas da última semana do Instagram. Além disso, uma pesquisa realizada pelo Twitter mostra que, entre 2014 e 2016, as conversas sobre carnaval na plataforma cresceram 43%, atingindo cerca de 12 milhões de twittes. A expectativa é de que o crescimento se mantenha neste carnaval.

Mas, claro, ainda é possível encontrar quem não se sinta tão à vontade. Os mais tradicionalistas dizem querer saber “mais de samba no pé”. Para evitar a invasão de privacidade e a “marcação” em fotos, um grupo chamado CryptoRave ensina a maquiagem capaz de proteger qualquer um da ressaca do dia seguinte.

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O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2017 | 03h00

No carnaval do faça você mesmo, em que todo mundo pode ser rei ou rainha, era de se esperar que as celebridades virtuais aproveitassem o momento para ampliar seus likes e viewers. A youtuber Mariana Saad, que tem mais de 1 milhão de inscritos em seu canal, postou vídeos ensinando maquiagens para blocos de carnaval e para fantasias. “Eu estou sempre conectada, então acabo vendo esses conteúdos por meio da atualização das pessoas nas redes. Muita gente posta sobre o carnaval e acho o máximo poder acompanhar tudo isso e ver as produções, tanto do look quanto da maquiagem”. 

Um dos criadores do bloco Casa Comigo, o publicitário Raul Neto, trouxe a expertise de sua agência de conteúdo digital para dentro da folia. São dois fotógrafos contratados para registrar a festa e mais uma equipe de colaboradores que, de celular em punho, fazem vídeos (ao vivo ou gravados) dos momentos mais marcantes. “Vamos alimentando nossas redes sociais com enquetes, memes de humor e tudo mais”, diz Neto. “O segredo é não fazer superproduções. Temos de manter a espontaneidade nas redes também”, afirma.

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26 Fevereiro 2017 | 03h00

A banda do Candinho sai pelas ruas de São Paulo desde a década de 80 – quando nem o celular nem mesmo um “carnaval de rua” existia de verdade na cidade. Apesar de estranhar o tanto de celulares erguidos durante o bloquinho, Candinho comemora a evolução. “Antigamente, a gente saia pela cidade e não aparecia nenhum fotógrafo. Ou, pior, a gente tinha de gastar uma grana com fotografia. Hoje, o nosso desfile fica circulando meses na internet. É uma divulgação natural. Um documento que fica por muito tempo”, fala Candinho – que prefere não revelar a idade. 

O cantor Roberto Silva, de 66 anos, diz que não se importa em ser filmado e que até se sente envaidecido. “O problema é quando alguém me entrega o celular e pede para eu tirar fotos ou filmar. Aí eu me atrapalho. Sou do tempo em que esses aparelhos só serviam mesmo para fazer ligações”, conta.

Já Ana Maria Hertolin, de 66 anos, avisa que costuma se esconder quando alguém aparece com um celular perto dela. “Carnaval, bloco de carnaval, são coisas para a gente sambar e relaxar. Imagina se alguém me vê em uma foto em que estou bebendo? Eu já sou avó”, brinca.

Candinho afirma que o carnaval na era digital é um “barato”. “No passado eu dizia que o carnaval de São Paulo seria grande quando todas as ruas tivessem seus bloquinhos. Hoje, cada condomínio dessa cidade tem um bloco. Tem pelo menos uma foto de carnaval na página de Facebook de cada um.” 

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26 Fevereiro 2017 | 03h00

Você acorda no dia seguinte, abre o seu Facebook e encontra uma foto sua abraçado a uma garrafa de Catuaba. Seus amigos, colegas e chefes já estão curtindo a tal foto que você foi marcado. Vergonha, né!

Para evitar esse tipo de constrangimento, o coletivo Cryptorave está divulgando uma técnica de maquiagem capaz de evitar o reconhecimento facial do Facebook, Instagram e outros, evitando que você seja marcado em qualquer foto. O maquiador Rafael Trocatti mostra que é simples burlar a criptografia das redes.

Como o reconhecimento facial é composto de algoritmos que buscam nas fotos determinados padrões, o segredo é quebrar a simetria do rosto. Para isso, é preciso abusar do branco e preto e fazer alterações no nariz e nos olhos, confundindo os programas de reconhecimento facial. “É um assunto sério. A privacidade é um direto que deve ser respeitado em qualquer circunstância”, fala a jornalista Mariana Pita, uma das organizadoras da Cryptorave.

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26 Fevereiro 2017 | 03h00

Como diz a marchinha, pode faltar arroz, feijão e pão, mas, hoje, o que não pode faltar é um bendito celular. São tantos lives, posts, twittes e fotos compartilhadas que até o mais avesso à folia é abraçado pelo carnaval. Basta abrir a internet e alalaô!

“Eu postei em todos os lugares. Tem foto e vídeos no Facebook, Twitter, Instagram e Snapchat. Acho que é um jeito de envolver todos os amigos e conhecidos no nosso carnaval”, conta a massoterapeuta Mônica Morales, de 31 anos. “Muita coisa acontece ao mesmo tempo no carnaval. Não dá para estar em todos os lugares. Então, as redes sociais ajudam a gente a sentir um gostinho da folia como um todo”, completa.

“Não é mais o carnaval do famoso ou da celebridade. O carnaval de rua é de gente comum. É meu, dos meus amigos e conhecidos”, filosofa o engenheiro Rogério Botelho Neves, de 28 anos.

No carnaval em que quase todo mundo quer ver e ser visto, os aplicativos de paquera estão em alta. O Tinder, por exemplo, teve um aumento de 10% de usuários no final de semana do pré-carnaval. “Eu marco com o ‘crush’ no próprio bloco. Assim, se for uma decepção, eu saio sambando e sumo na multidão”, confessa a advogada Renata Nascimento, de 25 anos.

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