Malária, uma alpinista competente

Sabendo que o aquecimento global é uma realidade, os cientistas tentam prever suas consequências. Uma das mais importantes é impacto das mudanças climáticas sobre doenças endêmicas, como a malária. Usando um método engenhoso, epidemiologistas conseguiram demonstrar que o aquecimento global vai facilitar o espalhamento da doença.

Fernando Reinach,

15 Março 2014 | 02h17

Apesar de as mudanças climáticas já estarem ocorrendo há algumas décadas, é praticamente impossível usar os dados de incidência da doença ao longo do tempo para descobrir se a malária se espalhou ou se contraiu com o recente aquecimento do planeta. Isso porque os fatores que determinam a incidência da malária são tantos que o efeito do clima fica totalmente obscurecido. O número de casos é afetado pela eficácia no combate dos mosquitos, pela intensidade e frequência das chuvas, pelo número de habitantes, e pelo uso extensivo de drogas que combatem a doença. Todos esses fatores mudam muito ao longo dos anos e impedem que o pequeno efeito do aquecimento global, que é lento, possa ser medido diretamente. Mas, agora, um grupo de cientistas descobriram um método capaz de medir o efeito da temperatura sobre a incidência da malária.

O estudo foi feito na Colômbia e na Etiópia. Nesses países, existem regiões em que a malária é endêmica e onde a altitude varia bastante. Na Etiópia, as partes baixas estão a 1.600 metros e, as mais altas, a 2.500 metros. Na Colômbia, a altitude varia de 50 a 2.200 metros. Em ambas regiões já se sabia que nos vilarejos localizados nos pontos mais altos não havia malária, pois a temperatura ao longo do ano é muito baixa, e tanto o inseto quanto o parasita têm dificuldade para se reproduzir. Já nos vilarejos mais baixos, onde a temperatura é alta o ano inteiro, tanto o mosquito quanto o parasita se reproduzem muito bem e a malária está sempre presente. Mas o que estaria ocorrendo nos vilarejos localizados entre os mais altos e os mais baixos? Será que a incidência da doença diminui gradativamente à medida que subimos a serra? Ou será que nesses vilarejos a incidência aumenta no verão e diminui no inverno?

Num primeiro passo, os cientistas identificaram a altitude em que ocorria a transição entre a área com malária e as áreas sem malária. Na Etiópia, isso ocorria entre 1.780 metros e 2.000 metros e, na Colômbia, entre 1.200 metros e 1.700 metros. Nessas regiões, a temperatura média durante o ano fica entre 17°C e 19,5°C. Numa segunda etapa, foram coletados todos os dados de incidência de malária nessas regiões, mês a mês, entre 1980 e 2005. Quando esses dados foram colocados num gráfico, foi possível observar que a incidência de malária aumenta e diminui a cada ano de maneira cíclica. Quando a temperatura cai, a quantidade de casos diminui, quando a temperatura aumenta, o número de casos também aumenta. A correlação entre a temperatura média de cada mês e a incidência de malária é muito alta

Esses resultados demonstram que, à medida que chega o verão, a malária sobe a montanha e ataca os moradores, mas, ao chegar o inverno, ela desce e permanece nas regiões mais baixas. De certa forma, a malária se comporta como os carneiros que pastam nas regiões altas no verão e voltam para os vales no inverno. Tal como os cabritos montanheses, a malária é um alpinista assíduo e competente.

O fato de esse fenômeno ter sido observado em dois continentes de maneira repetitiva por 25 anos sugere muito fortemente que o que limita o espalhamento da malária nessas regiões é somente a temperatura. É a primeira vez que uma relação direta entre o espalhamento da malária e a temperatura média de uma região é demonstrada de maneira direta. Com base nos resultados, os cientista preveem que a malária está entre as doenças que vão se espalhar conforme a temperatura do planeta for aumentando. As regiões mais altas, ao sofrerem com o aquecimento, passarão a ser atacadas pela malária da mesma maneira que as regiões mais baixas são atacadas hoje. E a fração da população mundial sujeita ao ataque da malária poderá aumentar.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO. MAIS INFORMAÇÕES: ALTITUDE CHANGES IN MALARIA INCIDENCE IN HIGHLANDS OF ETHIOPIA AND COLOMBIA. SCIENCE VOL. 343 PAG. 1154 2014

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