Mala pronta há um mês e três livros na prisão

Entre as obras, Pimenta levou Vigiar e Punir; em casa, seu computador estava ligado em site com a decisão do STF

Marcelo Godoy e Renato Machado, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

O jornalista Pimenta Neves estava pronto para a prisão. "Minha mala já estava aí há mais de um mês." Ele próprio contou esse detalhe na noite de ontem aos policiais que entraram em sua casa para combinar a apresentação.

Não fez nenhuma exigência de esquema especial para evitar o público. Antes de sair e trancar a porta, só pediu para apanhar três livros para levar à prisão: Vigiar e Punir, do filósofo Michel Foucault, O Deus Selvagem, do ensaísta A. Alvarez, e um volume das obras de Shakespeare.

Os primeiros policiais da Divisão de Capturas chegaram às 18h30 na casa de Pimenta Neves, na Chácara Santo Antônio, zona sul. Eles tocaram a campainha e bateram palmas, mas não houve retorno. Todos desconfiavam de que o jornalista estava em casa - seu Peugeot 606 estava na garagem, havia luzes acesas e um vulto passava de vez em quando na frente da porta de entrada.

Os policiais não podiam entrar na residência, pois ainda não havia mandado judicial e a legislação proíbe prisões em domicílio à noite - exceto em flagrantes. "Nós vamos cercar a casa para evitar uma fuga. Caso não haja contato, vamos invadir pela manhã e efetuar a prisão", disse o delegado assistente Pablo Baccin, que primeiro conduziu a operação.

Uma hora depois, no entanto, o jornalista abriu a porta e chamou os policiais para entrar em sua casa e conversar sobre a apresentação - que já havia sido acertada por telefone. "O senhor está com prisão decretada", disse o primeiro policial. "Ah, tudo bem, entre aqui. Já estou sabendo, liguei para minha advogada", respondeu Pimenta.

Seu computador estava ligado e um site mostrava a notícia da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A conversa durou meia hora, período em que uma viatura estacionou de ré na frente da garagem. "Nós não poderíamos escondê-lo. Foi um caso de muita repercussão e aumentaria mais a tensão do momento se entrássemos com um carro na casa dele", afirmou o diretor do Departamento de Identificação e Registros Diversos, Aldo Galiano Júnior.

Às 20 horas, Pimenta Neves saiu de casa calmamente, usando calça social, camisa e cardigã. Ele não usava algemas e disse que "não tinha nada a declarar". Já na viatura questionaram se foi surpreendido com a decisão do Supremo, ao que ele respondeu "não". Algumas pessoas aplaudiram, enquanto outras gritaram "assassino".

Pimenta Neves foi levado na noite de ontem para a delegacia da Divisão de Capturas. No local, passou por exames de corpo de delito (concluídos por volta das 23 horas) e passaria a noite no 2.º Distrito Policial, no Bom Retiro, região central.

Vizinhos. A prisão de Pimenta Neves mobilizou moradores do bairro na frente da residência. Eles contaram que o jornalista dificilmente saía de casa e, quando o fazia, era pela manhã bem cedo. "Eu só o via quando ia levar meus filhos na escola e ele saía para caminhar, por volta das 6 horas. Mas ele nunca repetia o mesmo caminho", contou a moradora do bairro Cristiane Steinhoff

O empresário Christian Daniel Ferreiro, de 38 anos, morava ao lado da casa de Pimenta Neves na época do assassinato e depois mudou para uma rua próxima. O jornalista chegou a entrar na residência do vizinho antes do crime para verificar rachaduras no muro. "Depois, eu nunca mais o vi na rua. De vez em quando, vinha uma pessoa de moto na casa dele, mas não dava para ver quem era, porque ele não tirava o capacete até entrar na casa."

Mandado

A polícia prendeu Pimenta Neves antes mesmo de receber o mandado de prisão da Vara do Júri de Ibiúna. Por ordem do STF, ele será expedido hoje.

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