Mais vizinhos inesquecíveis

Não tendo havido objeções, protestos ou ameaças, volto ao tema vizinhos, até porque, como o nome indica, está sempre por perto.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2011 | 00h00

Além da galeria, por vezes bizarra, que descortinei aqui na semana passada, já escrevi sobre uns tantos tipos que Deus e eventualmente o Diabo têm plantado nas imediações.

Falei, por exemplo (longe de mim usar este espaço para fazer propaganda de meu livro O Espalhador de Passarinhos & Outras crônicas!), da Vizinha Erótica - a senhora já entrada em anos que, às voltas com a criação de dois sobrinhos metaleiros, um dia não viu outra saída para levantar uns cobres senão encher oito laudas com escaldante prosa pornográfica e enviá-las, sob pseudônimo, à redação da revista Playboy, da qual eu era o redator-chefe. Estive a pique de perder o fôlego, mas nem por isso me animei a servir aos leitores aquele desenfreado Kama Sutra, fruto de um esforço, jamais se saberá, de imaginação ou de memória.

Escrevi também sobre o casal maduro cuja janela ficava em frente à minha, e que fazia amor no espaço dos comerciais da televisão; em geral discretos, nessas ocasiões ele e ela se comportavam como as emissoras que elevam os decibéis na hora dos anúncios, de tal forma que o pessoal do prédio precisaria ser surdo para não se dar conta do entrevero carnal que então rolava no apartamento 4. Tudo se passava tão rapidamente que me pergunto se os dois chegavam a tirar os chinelos Rider.

Ainda no capítulo sonoro, havia também, no terceiro andar, o garotão que arpejava o corpo da namorada com tamanha proficiência que dele extraía orgasmos em cascata, audíveis em pedagógico ah! eh! ih! oh! uh! no edifício inteiro. Não sem razão, o moço veio a ser o ídolo de nosso zelador, especialmente atento ao entra-e-sai sexual no condomínio.

Menos gostável, a qualquer título, era a criatura que durante algum tempo tive sobre minha cabeça, e cuja banheira de hidromassagem provocou infiltrações numa parede de meu apartamento. Descrente da lei da gravidade, a vizinha tentou me fazer crer que se tratava do contrário: aqui é que minava a água que a qualquer momento ensoparia o chão de seu banheiro. Como tivesse em casa um marido que não raro lhe prodigalizava uns tabefes (sim, para qualquer um ouvir), achei prudente não levar minhas reclamações às últimas consequências. A criatura ainda reagiu mal quando eu lhe disse que, em face do fenômeno do líquido que subia pelas paredes, estava pensando em acondicioná-lo em frascos para vender como poção milagrosa. Por sorte, também o casamento deles começou a fazer água, culminando numa separação que abriu espaço para vizinhança mais abordável.

Em outro prédio, uns anos antes, eu havia penado com uma gente que, mesmo sem refregas conjugais, também me trouxe problemas líquidos e certos. O marido ganhou lá em casa o apelido de Santinho, pela insistência em me arrastar para a sua estridente igreja pentecostal, e me custou trabalho convencê-lo da minha natural e inelutável inclinação para o pecado. A mulher era gorda, tão hipopotamicamente gorda que só se soube que estava grávida quando a bolsa rebentou. Ao relembrar seu physique de rolo, me pergunto se não esteve sempre grávida. Mais impactante que o estouro da bolsa foi o do boiler do apartamento deles, inundando e inutilizando nossos armários embutidos.

Por fim, não há como esquecer o jovem casal portenho que tive, do outro lado da parede, num pardieiro londrino em Earls Court, e que brigava sempre a mesma briga, o mais das vezes, como sói acontecer, em torno de insignificâncias que camuflam as verdadeiras fraturas conjugais. Quase se podia acertar o relógio pelo momento em que vinha de lá, com dramaticidade tanguesca, o invariável berro madrugal, cravejado de exclamações e interrogações invertidas: "¡No, no te voy a dar um cigarrillo! ¿Cuántos cigarrillos me debés?" Brevíssima pausa antes que borbotasse um choro de mulher. Vou dar um jeito nisso! - cheguei a pensar na primeira noite. Meu ímpeto justiceiro, porém, se esvaiu na manhã seguinte, quando cruzei no hall de entrada com os dois agarradinhos, felizes da vida, cada um levando nos lábios, qual cachimbo da paz, o fumegante móvel da briga de todas as madrugadas.

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