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Mais que um prato de comida

O Senado aprovou na última semana uma lei que proíbe a venda de bebidas de baixo teor nutricional e alimentos que têm quantidades elevadas de açúcar, gordura ou sódio nas cantinas das escolas de educação básica no País. A medida ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e sancionada pela Presidência para passar a valer.

Jairo Bouer,

18 de agosto de 2013 | 02h03

A ideia por trás da lei é tentar reduzir o número crescente de crianças com sobrepeso e obesidade no Brasil e emplacar uma dieta mais saudável desde cedo, o que contribuiria para diminuir problemas como níveis elevados de colesterol e de pressão arterial, que vêm aparecendo precocemente nos jovens.

A questão não é exclusiva daqui. Boa parte do mundo (e não apenas os países ocidentais) assiste a uma epidemia crescente de excesso de peso e de doenças relacionadas. O problema tem sido detectado já na infância, o que aumenta a chance do adolescente e do adulto virem a se tornar obesos também.

A questão não está apenas na dieta alimentar, mas nos hábitos de vida, que parecem ter se transformado de forma mais aguda nas últimas décadas. Os jovens estão mais sedentários, fazem menos atividades físicas com regularidade e passam muito mais tempo na frente de TVs e computadores. A maior urbanização do País e o aumento da violência são apontados também como fatores que aumentaram o tempo que se passa dentro de casa.

A modernidade e as diversas tecnologias facilitam a vida do ser humano e fazem com que se gaste menos energia para tarefas que habitualmente davam mais trabalho. Algumas pesquisas apontam que a cada botão que automatiza uma função (abrir e fechar a janela do carro, por exemplo) ou a cada novo controle remoto que aparece em nossas vidas, existe o risco de ganho extra de um quilo de peso por ano.

Com a melhora do poder de compra da população brasileira na última década, foi natural a aquisição de mais bens de consumo, que podem ter tornado a vida doméstica mais fácil, mais atrativa e mais sedentária. Além disso, a população encontra alimentos industrializados e calóricos mais baratos do que alimentos mais saudáveis (frutas, grãos, legumes, verduras, carnes), que ainda exigem maior tempo de preparo. Na correria das grandes cidades e no aperto do orçamento, fica ainda mais evidente a troca das proteínas e sais minerais pelas gorduras saturadas e pelos carboidratos. Além disso, o maior poder aquisitivo não veio junto com uma educação alimentar satisfatória da população. Faltou explicar em campanhas e nas escolas públicas o que pode fazer bem e o que certamente faz mal ao peso e à saúde.

Dessa forma, mudar os alimentos nas cantinas pode ser um bom começo mas, sem interferir no que a família está comendo (reeducação alimentar) e em como ela tem se comportado em relação a hábitos mais saudáveis, fica difícil mudar a situação no País.

A questão é, de fato, complexa. O Reino Unido que, por exemplo, adotou há alguns anos uma mudança no perfil dos alimentos nas escolas e incentivou maior comunicação com os pais sobre o tema, nas últimas semanas lançou novas recomendações para que educadores e profissionais de saúde tomem muito cuidado ao lidar com os pais de crianças com problemas de peso. Cartas e mensagens dizendo que o filho está obeso ou com sobrepeso têm deixado muitos pais enfurecidos e frustrados. Eles têm interpretado a questão do peso excessivo como uma falha na sua função como pais, o que tem afastado as crianças dos devidos cuidados.

Os jornais ingleses chamavam a atenção para casos de algumas crianças que já ultrapassavam os 100 kg. Esse outro ponto é pouco observado: a forma como os pais lidam com a questão do peso diretamente com seus filhos. O tema é muitas vezes um tabu!

Um filme lançado na Europa em agosto muito interessante sobre a questão é Paradise: Hope (www.siff.net/festival-2013/paradise-hope), em que uma mãe austríaca leva uma adolescente obesa de 13 anos para passar suas férias internada em um "diet camp" (acampamento para perda de peso). A falta de diálogo sobre o tema entre mãe e filha e a imposição de um regime de emagrecimento forçado mostram como essa tentativa pode redundar em um total fracasso. Vale uma espiada!

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