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Mais que o lugar, o importante agora é o nome da festa

Com público fiel, baladas itinerantes se tornam mais conhecidas até que casas e clubes famosos e mudam perfil da noite da cidade

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2011 | 00h00

Lions, HotHot, Museum, não importa o clube para onde a festa Heat tenha migrado. O designer de interiores Rafael Galvão, de 26 anos, sempre vai atrás dela. "Descobri a Heat há quase três anos, quando era na SPKZ, na Vila Madalena (zona oeste da capital), e, desde então, não perdi uma. Gosto da música, do público, e a sigo direto", diz.

Vários frequentadores da noite de São Paulo agora têm o mesmo perfil de Galvão: decidem aonde vão pela grife da festa, não mais pela da casa noturna. Assim, o Estúdio Emme, na zona oeste, é, para quem gosta de ir à Talco Bells, apenas o novo endereço da festa. Esse público já a frequentava quando era no Hotel Cambridge, no centro, e está pronto para acompanhá-la aonde quer que vá.

"No começo, era uma festa para amigos, 200 pessoas. Hoje, apesar de tocar os mesmos vinis de soul music, não dá mais para dizer que a gente conhece todo mundo", diz Bruno Torturra, sócio fundador da Talco. A próxima será hoje.

Disputadas. O fenômeno da migração das baladas fez com que casas noturnas passassem a disputar as mais bombadas e ampliassem sua programação. "Tem festa aqui todo dia. O público vai aonde elas estão", afirma o empresário Facundo Guerra, sócio do Lions, na região central, que recebe quatro festas diferentes de terça-feira a sábado.

A lista das que fidelizaram público e o levaram pelos clubes noite afora é extensa. Entre as mais conhecidas estão a Balada Mixta, que recebia na Funhouse, na Rua Bela Cintra, região central, e migrou para o Emme; a Oui Oui, que foi da Drops, na Bela Vista, para o Glória, na mesma região central; e a Kill Yoko, que era cartaz de 15 em 15 dias no Alley, na Barra Funda, e agora está no Bar Secreto, em Pinheiros, ambos na zona oeste.

A Cio, só para garotas, existe há 14 anos e passou por oito clubes. Hoje, assim como a Hells, que estreou há 17 anos no clube Columbia, na esquina das Ruas Augusta e Estados Unidos, está no Beat Club, no Baixo Augusta, região central. "A Hells foi o primeiro after hours de São Paulo, é um "label" forte, as pessoas já sabem o que vão encontrar", diz o promoter e DJ Pil Marques.

Para mudar de um clube a outro, o dono da festa costuma negociar um porcentual na bilheteria, ou, dependendo da "visibilidade da marca da balada", até no consumo do bar. "Os acordos variam de promoter para promoter. Acho que eles estão satisfeitos porque parecem sempre tão alegres", diz André Hidalgo, sócio do Glória, no Bexiga, que também absorveu a Killing the Dance, de música indie. Caso peculiar, a Killing manteve sua versão menorzinha na Torre do Dr. Zero, em Pinheiros.

O valor que a festa agrega ao clube e vice-versa também conta pontos na hora da aproximação. "Em geral, uma reforça o conceito do outro", diz o coordenador de eventos do Bar Secreto, Pedro Beck, de 26 anos.

Com capacidade para apenas 200 pessoas, o Secreto sempre sustentou o marketing de "bar para poucos". Ficou conhecido por receber Madonna e barrar pessoas que não tivessem "a cara do bar". O DJ Mura, que sabe "a hora" de misturar Hey Jude, dos Beatles, com Daft Punk, reforça o conceito. "Não temos interesse em que a balada cresça ao ponto de a gente não saber para quem está tocando."

Pedro Beck, do Bar Secreto, por sua vez, é também produtor da Balada Mixta. Mensal, a festa tem como chamariz a personagem Katylene, que em seu blog se apresenta como "beesha phyna" (bicha fina) e tem 1 milhão de visitas por mês.

Madonna e Fagner. Preservar a exclusividade da festa é, para alguns de seus criadores, mais importante do que o lucro. Até agora, ninguém convenceu o publicitário Emmanuel Vilar, de 29 anos, o Mano, da festa Sem Loção, de que seria um bom negócio migrar de um velho casarão do Bexiga. "A fila na porta é tão grande que fica até amigo de fora. Mas, se a gente deixar entrarem mais de 600 pessoas, fica outra festa. E não queremos assim", diz Mano. A trilha sonora da Sem Loção, que comemora um ano amanhã, segue a fórmula "festa de casamento": toca de Madonna a Fagner.

Se alguém pede ao dono de uma dessas festas que defina seu público, ele dirá "o mais variado possível". De fato, qualquer um pode identificar-se com o hip hop da Chocolate, o rock da Six Degrees e, no Lions, o pop desencanado da Katylene. Mas, se o leitor for a uma dessas festas, verá que os frequentadores sabem muito bem distingui-las. "Quando saio, é pra ir à Kill Yoko. Já sei quem vai, conheço as pessoas, acho ambiente familiar", diz a produtora de casting Alessandra Fernandes, de 30 anos.

Festa para 200, 500, mil pessoas, para o povo do rock, fashionistas, metaleiros, gays, skatistas, parece que não falta mais nada na noite de São Paulo, tida como a melhor do País. Mas ainda tem gente querendo inventar moda. E consegue. "O marketing agora vale mais que a qualidade. Antes, as pessoas prestavam atenção na música, sabiam pelo menos quem era o DJ", diz o veterano Pil Marques. 

Veja também:

linkProdutor de festas agora é chamado de 'curador'

Serviço

WWW.TALCOBELLS.BLOGSPOT.COM; WWW.BALADAMIXTA.WORDPRESS.COM;

WWW.HELLSCLUBSP.TUMBLR.COM;

WWW.KILLINGTHEDANCEPARTY.WORDPRESS.COM

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