Mais parceiros, menos cuidados

Os brasileiros hoje têm mais parceiros sexuais, sabem como se proteger do vírus causador da aids, mas quase a metade não usa camisinha de forma consistente em suas relações casuais. Essas são as principais conclusões da mais nova pesquisa sobre comportamento sexual no País, divulgada na última semana pelo Ministério da Saúde, durante o lançamento da campanha de carnaval de prevenção à aids e outras DSTs.

JAIRO BOUER*, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2015 | 02h03

A Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP, 2014) entrevistou 12 mil pessoas de 15 a 63 anos em 2013. Ela já havia sido realizada em 2004 e 2008. O número de pessoas que disseram já ter tido mais de dez parceiros sexuais saltou de 19%, em 2004, para 44% em 2014, ou seja, mais do que dobrou, o que revela um padrão mais liberal do brasileiro.

Quase a metade (45%) dos entrevistados disse não ter usado camisinha nas relações casuais no ano da pesquisa, apesar de 94% saberem que o uso regular do preservativo protege contra o vírus HIV e outras doenças transmitidas pelo sexo. O dado revela uma faceta importante: nem sempre o que se sabe é incorporado à prática.

Transformar informação em mudança de comportamento é sempre um grande desafio no campo da saúde, desafio ainda maior em um momento de comportamento sexual mais variado, em que as pessoas têm adotado mais atitudes de risco.

Além do uso regular da camisinha, que parece enfrentar resistência em alguns segmentos da população, sobretudo entre os mais jovens, novas tecnologias como o teste para detecção do HIV, a profilaxia pós-exposição (tomar remédio antiviral por um mês em caso de relações desprotegidas) e a profilaxia pré-exposição (pílula usada de forma diária para evitar contaminação, ainda em fase de teste de adesão no Brasil) podem ajudar na diminuição das novas infecções pelo vírus, que atingem o número ainda muito elevado de 39 mil casos novos por ano.

Um dos elementos nessa dinâmica da falha no uso da camisinha é justamente a relação com o risco. Para alguns grupos, "desligar o botão da razão" no momento do prazer é um dos fatores que aumentam o desejo. Muitas vezes, sob efeito de álcool ou de outras drogas, essa relação entre risco e prazer fica ainda mais distorcida.

Outra questão é o afastamento dos mais jovens das fases mais críticas da epidemia. Sem enxergar tanto risco na aids, com a perspectiva de um tratamento eficaz e com a minimização das dificuldades enfrentadas pelos soropositivos, o jovem parece ter menos receio do vírus. O problema é ainda mais agudo na população dos homens que fazem sexo com outros homens, grupo em que a prevalência do HIV é mais alta do que na população geral.

Bebidas com açúcar. Outro alerta da semana veio de um estudo da Harvard Medical School, nos EUA, publicado no jornal Human Reproduction. Garotas que bebem refrigerantes e sucos com açúcar podem ficar menstruadas mais cedo. Foram acompanhadas 5.500 meninas de 9 a 14 anos entre 1996 e 2001. Aquelas que consumiram uma lata e meia de refrigerante ou uma garrafinha e meia de suco adoçado por dia menstruaram quase três meses antes daquelas que bebiam apenas duas ou menos porções ao longo da semana. A menarca no primeiro grupo aconteceu em média aos 12,8 anos. 

O consumo de refrigerantes diet ou de sucos naturais não antecipou a data da menarca. O resultado foi independente de fatores como peso, altura e prática de atividade física. Bom lembrar que, quanto antes ocorre a primeira menstruação, menor a estatura final das garotas, além de possível maior risco de alguns tipos de câncer, como o de mama.

*É PSIQUIATRA

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