Mais Médicos não chega a unidades que mais precisam na capital paulista

Primeira fase do programa do governo federal vai contemplar postos de saúde de SP que registram baixo déficit de profissionais; na contramão, locais com alta demanda continuam sem previsão de novas contratações para conter a superlotação

ADRIANA FERRAZ , MÔNICA REOLOM, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h07

Os 16 profissionais selecionados para participar do programa Mais Médicos na capital paulista não vão conhecer apenas as regiões mais pobres da cidade nem atuar somente nas unidades de saúde que registram os maiores déficits de médicos. Os postos escolhidos pelo grupo de brasileiros formados no exterior e pelos estrangeiros que aceitaram trabalhar no País registram, no máximo, quatro plantões vagos cada e não se localizam somente nos extremos da periferia.

A primeira lista de 12 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) contempladas pelo programa do governo federal inclui endereços distantes do centro, como os bairros de Brasilândia, na zona norte, e Vila Curuçá, na zona leste. Mas também locais menos afastados, como os bairros de Vila Campestre e Vila Santa Catarina, além da Favela de Paraisópolis, todos na zona sul.

A Prefeitura ofereceu uma lista de 80 endereços aos médicos participantes, que tiveram autonomia para escolher seu posto de trabalho. Desse modo, bairros do extremo da zona leste, como Jardim Romano, Cidade Tiradentes e Guaianases, ficarão de fora do programa federal - pelo menos por enquanto.

De fora ficarão unidades carentes, como a AMA Jardim Santo André, na zona leste, onde a operadora de caixa Maiane Xavier, de 22 anos, levou mais de três horas para conseguir que seus dois filhos fossem atendidos pelo pediatra, na manhã de ontem. "É sempre demorado. Tem dia em que falta médico e a gente tem de se deslocar para outro lugar", afirma. A demanda por pediatras e clínicos no posto é uma das maiores, com 16 plantões vagos.

Para piorar, os médicos faltam com frequência. "O pediatra, às vezes, não aparece. E, quando o segundo pediatra sabe que o primeiro não vai, também não aparece. A pressão da população sobre eles é muito grande, por isso não gostam de vir sozinhos", diz o clínico Dennis Freddy Teran, de 33 anos.

Na contramão, a Unidade Básica de Saúde Cupecê, na zona sul, só tem uma vaga aberta - e vai receber um médico do governo federal. Ontem, 25 intercambistas foram conhecer o posto. Nos corredores, a presença dos estrangeiros chamou a atenção. "É bom que eles venham aqui e vejam como as coisas são. Só por causa deles, a direção mandou trocar as lâmpadas queimadas e colocar papel higiênico nos banheiros", reclamou a vigilante Mônica Ferreira, de 26 anos. As ponderações foram ouvidas pelos médicos, que não desanimaram.

"Faz parte. Temos de ouvir as pessoas para saber qual é a realidade e poder trabalhar com ela. Ninguém aqui acha que não vai enfrentar problemas", argumentou o argentino Lucas Canavoso, de 33 anos. Especializado em cirurgia geral, ele vai atender no Guarujá, no litoral paulista. A colega Natalia Alloco, de 26 anos, se mostrou surpresa com a visita. "As unidades podem ter problemas, mas têm mais equipamentos e medicamentos do que imaginei", disse.

Na capital, as 12 UBSs selecionadas são administradas por Organizações Sociais (OSs), que, por contrato, deveriam providenciar a contratação dos médicos. A Secretaria Municipal da Saúde afirmou que as parceiras não receberão pelos profissionais do Mais Médicos e informou ainda que o programa federal não é a única estratégia para contratação na cidade. As OSs precisam completar mais de 1,2 mil plantões vagos.

Estado. O "poder de escolha" não foi dado apenas para quem viesse trabalhar na cidade de São Paulo. É regra do programa federal permitir ao profissional inscrito fazer suas opções. De acordo com o Ministério da Saúde, nessa primeira leva de selecionados, as primeiras opções acabaram contempladas. E boa parte delas inclui cidades das regiões metropolitanas de São Paulo, Santos e Campinas.

O resultado é a exclusão dessa primeira fase de municípios estaduais considerados prioritários de acordo com seus índices de vulnerabilidades sociais, como Pedreira, São Lourenço da Serra, Embu-Guaçu e Cosmópolis. O governo federal estima que essas localidades sejam atendidas nas próximas chamadas./COLABOROU VICTOR VIEIRA

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