Rafael Arbex/ Estadão
Rafael Arbex/ Estadão

Mais de 150 siglas lutam por moradia em SP

Movimentos e associações se multiplicam, embora alguns datem dos anos 1970; partido no podertambém afeta militância

LAURA MAIA DE CASTRO, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2014 | 02h02

O número de movimentos e organizações - ou seja, de siglas - que se articulam com a pauta de habitação na cidade de São Paulo já passa de 150. Ao contrário do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que ganhou notoriedade com as invasões no período da Copa, alguns existem desde a década de 1970. Segundo especialistas, é até difícil acompanhar o dinamismo dos movimentos que se renovam a todo instante.

Só de entidades habilitadas pelo Ministério das Cidades para atuarem no programa federal Minha Casa Minha Vida Entidades - que permite a construção de casas populares pelas associações - são 141. Entre elas, está a Unificação das Lutas dos Cortiços e Moradia, que foi um dos primeiros movimentos a atuar no centro da cidade. Ele foi criado há 23 anos, com base na reivindicação de movimentos independentes contra o preço das tarifas dos cortiços na zona leste. "A história desencadeou na unificação pela luta por moradia na região central e a primeira ocupação aconteceu em 1997 na Rua do Carmo", explicou o coordenador Sidnei Pita.

Juntamente com outras 22 siglas, o movimento é filiado à União de Movimentos de Moradia (UMM), uma das principais articulações da cidade - ao lado da Frente de Luta por Moradia (FLM). Segundo João Sette Whitaker, coordenador do Laboratório de Habitação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), as duas principais articulações agregam dezenas de movimentos com diferentes estratégias. "Há muita variedade porque é um tipo de luta efêmera e dinâmica. Um movimento pode, por exemplo, perder força ao ser atendido com muitas casas populares. A partir daí, alguns integrantes fundam outra sigla. Também há muitos casos de divergência interna nas formas de atuação porque são movimentos políticos que têm de estabelecer estratégias."

Para Whitaker, a intensificação da atuação dos movimentos está ligada não só à crise habitacional, mas também ao partido que está no poder. "É normal que apareçam mais em governos que estão mais abertos a esse diálogo. Mesmo que não quisessem, governos do PT são obrigados a abrir diálogo maior", afirmou.

Exemplos. Assim como os movimentos, os integrantes deles têm diferentes trajetórias. A diarista Izabel Santos Salvino, de 32 anos, é integrante do MTST há cerca de 9 meses e estava com os três filhos em um colchão na frente da Câmara, durante a ocupação da semana passada. Após morar de favor durante um ano na casa de uma amiga, ela foi para a ocupação Dona Deda, onde vive com os três filhos. Ao falar do futuro, não consegue segurar as lágrimas. "Eu me sinto em alto-mar. A gente acredita que vai dar certo, mas também sabe que pode naufragar a qualquer momento. A força das crianças é o que me sustenta", disse Izabel, enquanto sua filha Ester e seu filhoYuri de apenas 3 anos enxugavam suas lágrimas.

Já a dona de casa Madalena Andrade, de 45 anos, faz parte de movimentos de moradia do centro há 17 anos. Atualmente, está cadastrada no Movimento de Moradia da Região do Centro e mora em um prédio invadido na Rua Pamplona. "Já não aguento mais morar em ocupações. Estamos sempre com um pé dentro e outro fora."

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