Mais da metade dos menores internos foi criada sem o pai

Três rapazes, de 16, 17 e 18 anos, que estão na Fundação Casa relatam histórias de abandono e decepção

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Ricardo, de 18 anos, perdeu os pais ainda na infância. A avó foi quem passou a criá-lo. Quando tinha 6 anos, a mãe morreu de problemas cardíacos. Quatro anos depois, o pai – traficante de drogas – foi baleado durante confronto com a polícia e não resistiu. Quando tinha 8 anos, Ricardo chegou a visitá-lo na cadeia. Lembra do muro alto e do “clima estranho”. “Lá era totalmente diferente de todo lugar que já passei.”

Colega de Ricardo, Jorge, de 17 anos, foi criado por mãe solteira com mais três irmãs. Todas de pais diferentes. Pela lei, Jorge está a um passo de se tornar adulto, mas até hoje ele nunca entendeu o motivo pelo qual o pai jamais se fez presente. “Não sei por que meu pai não me dá atenção. Se eu fosse depender dele, ele não vinha atrás. Não tinha interesse em me buscar (para sair).”

Miguel, o mais novo dos três rapazes, saiu apenas uma vez com o pai em seus 16 anos de vida. “Não via meu pai quando era criança. Ele me levou ao McDonald’s uma vez com a minha irmã. Não fui sozinho porque fiquei com medo.” Miguel voltou a encontrá-lo três anos depois, quando o pai prometeu que o levaria para a praia. “Acabamos nem indo. Só que nessa época conheci meus primos, minhas tias. Fiquei ‘mó’ feliz! Aí, ele sumiu de novo.”

Além de compartilhar a ausência paterna, Jorge, Miguel e Ricardo (nomes fictícios) têm outras características em comum: são adolescentes em conflito com a lei e vivem na mesma unidade da Fundação Casa, na Vila Maria.

Família. Dos 9.978 garotos que cumprem medidas socioeducativas na fundação, mais da metade foi criada sem o pai. De acordo com a direção da Fundação Casa, essa parcela dos internos viveu ou apenas com a família da mãe ou é filho de pai que está preso. Do total de jovens na instituição, 96% não estão na série escolar adequada para a idade e mais de 30% haviam abandonado os estudos meses antes de cometer o ato infracional. 

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