Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Mais antigo teatro do interior de SP, o ''belo parado'' quer reviver glória

Histórico imóvel de Bragança Paulista, erguido em 1894, ganha reforma orçada em R$ 8,5 milhões para se tornar centro cultural

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2011 | 00h00

Abandonado e deteriorado, o prédio de 1894 do Teatro Carlos Gomes, em Bragança Paulista (SP), deve ter sua reforma e restauração iniciadas nos próximos dias. Depois de abrigar casa de espetáculos, colégio, faculdade e escola técnica, o imóvel vai recuperar, com juros e correção monetária, sua vocação original: além de teatro, seus 3,7 mil metros quadrados terão centro cultural com biblioteca, museu, escolas de dança e música.

A obra está orçada em R$ 8,5 milhões - R$ 6,5 milhões do governo do Estado e o restante do município. "Esperamos iniciar o trabalho em 45 dias e reinaugurar o espaço em dois anos", promete o vice-prefeito Luiz Gonzaga Mathias (PSDB), economista e autor de dois livros sobre a cidade, Bragança 2000 e Em Busca dos Marcos Perdidos. "Sempre tive vontade de recuperar esse prédio, na minha opinião o mais bonito da cidade", diz o arquiteto Affonso Risi, autor do projeto.

Quando foi inaugurado, o teatro podia receber 1,2 mil espectadores. Bragança tinha menos de 40 mil habitantes; hoje, são 147 mil. A riqueza dos fazendeiros do café financiou a construção, entre 1892 e 1894. São Paulo só teria o seu Teatro Municipal 17 anos mais tarde, em 1911. Segundo pesquisas do Condephac - o órgão de proteção ao patrimônio de Bragança -, o Carlos Gomes foi o primeiro teatro do interior paulista.

No início dos anos 1920, entretanto, com o princípio de ocaso da riqueza cafeeira, a efervescência cultural da cidade amargou a decadência. O imponente prédio enfrentava sua primeira crise e chegou a ser usado para bailes, chás da tarde da alta sociedade bragantina e até como espaço para tiro ao alvo. Até que chegou ao fundo do poço, ocupado por sem-teto. Não à toa, ganhou o apelido de "o belo parado".

Graças a um acordo entre a Câmara e a Diocese, em 1927 o local se transformou no Colégio São Luiz. Administrada por padres agostinianos, a instituição tornou-se referência de rigidez e qualidade. "Não dá para falar disto sem me comover", comenta o antigo professor da escola Angelo Magrini Lisa (1914-2010), no documentário O Belo Parado.

"Os melhores anos de minha vida passei aqui", lembra o químico aposentado Arnaldo Consolin, de 69 anos, aluno entre 1951 e 1959. "Quantos sonhos não estão fechados aí dentro?", diz o técnico automotivo aposentado Ubiratan Gonçalves, de 72, aluno entre 1952 e 1954. "O colégio era o majestoso da cidade."

Um ex-estudante ilustre do São Luiz é o novelista Manoel Carlos, da Rede Globo. Nascido e criado em São Paulo, ele foi matriculado no colégio em 1944, quando tinha 11 anos. "Ser aluno interno foi um castigo que resultou numa felicidade, num benefício para mim." Apesar de ter estudado só três anos no São Luiz, jamais perdeu o vínculo com a instituição. Costumava visitar o professor Angelo Magrini Lisa até a sua morte, no ano passado.

O Colégio São Luiz entrou em declínio no fim dos anos 1960. Antes de se tornar novamente um "belo parado", o imóvel abrigou a Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista e o Colégio Técnico João Carrozzo, fechado em 2000. Em dezembro do mesmo ano, saiu o tombamento. Pouco tempo depois, a prefeitura o compraria.

Nos últimos anos, todos os trâmites foram articulados para a reforma. Enquanto isso, o imóvel era ocupado por arruaceiros, pichadores e usuários de drogas. Na noite de 10 de junho do ano passado, um susto: um incêndio causado por vandalismo consumiu parte do prédio.

Agora todos os olhares bragantinos se voltam para o "belo parado". Para que ele volte a ser majestoso. O mais majestoso prédio de Bragança Paulista.

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