Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Maioria de restaurantes e bares prefere continuar fechada na cidade de São Paulo

Apesar da liberação, pesquisa aponta pouca adesão do setor e, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, cenário não deve mudar

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 17h38

A maioria de restaurantes e bares da cidade de São Paulo preferiu continuar fechada, mesmo após o sinal verde dado pela Prefeitura. Pesquisa feita na capital paulista na segunda e terça-feira com 140 estabelecimentos aponta que 80% dos bares e 59% dos restaurantes não abriram as portas. E pretendem continuar assim, de acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-SP).

Pelas novas regras, os estabelecimentos podem funcionar entre 11h e 17h e é proibido colocar mesas na calçada. Oito em cada dez bares afirmaram não ser possível reabrir com esse horário e 55% disseram que a proibição de mesas na calçada afeta o negócio.

Percival Maricato, presidente da Abrasel em São Paulo, aponta vários fatores para explicar a baixa adesão à retomada. "Há muita insegurança da parte dos empresários: a Prefeitura vai voltar atrás, o cliente vai aparecer", questiona.

Além disso, ele ressalta as restrições ao horário de funcionamento que tornaram operação mais cara e o faturamento muito menor em relação a períodos de normalidade. Do jeito que foi feito, diz Maricato, ficou inviabilizado o negócio para os estabelecimentos que servem café da manhã, pizzarias e bares, estes dois últimos com maior concentração do movimento no período noturno.

"O que queremos é que abertura pelo período de seis horas seja flexibilizada, de acordo com o perfil do estabelecimento, com os bares à noite, por exemplo",  diz o presidente da Abrasel.

SAÚDE

Para o empresário Facundo Guerra, sócio do Grupo Vegas, com seis bares fechados espalhados pela cidade, entre os quais os icônicos Riviera e Cine Joia, a questão da reabertura envolve outros aspectos. "Não vou reabrir porque os bares são vetores de transmissão do vírus e só vou retomar quando puder levar a minha mãe, de 70 anos, para jantar", diz o empresário.

Além da questão ética, Guerra lembra da financeira. Ele conta que, nos seis bares, demitiu mais de 200 pessoas, desmobilizou as equipes. Para retomar, teria de investir em treinamento e adaptações num momento em que o Grupo Vegas está com caixa negativo.

"Muitos bares que vão tentar retomar agora vão acabar quebrando porque não há garantias de que esse investimento necessário à reabertura tenha retorno, o público não está respondendo."

Na avaliação de Guerra, a reabertura neste momento é precipitada por pressão lobista da associação do setor. E as regras de retorno são "completamente tortas", diz. Ele destaca que o horário de funcionamento não é adequado nem para bares nem restaurantes, porque 70% do movimento ocorre em período noturno.

Esse é o desafio enfrentado por Gabriel Pinheiro, dono da Pizzaria Villa Roma Bistrô, com uma unidade nos Jardins e outra no bairro do Tatuapé. A maioria da clientela dos restaurantes é de pessoas que trabalham nas imediações. Agora, como estão em home office, a freguesia diminuiu muito. "Só para almoço não vamos reabrir", diz o empresário.

Nas suas contas o investimento não valeria a pena e ressalta que não vê sentido no horário de funcionamento estabelecido pela Prefeitura. Para manter a marca ativa na cabeça dos clientes, o restaurante está trabalhando por meio de serviço entrega (delivery) e, mesmo assim, com prejuízo. "Delivery representa 20% do meu faturamento."

Maricato diz que 60% dos estabelecimentos aderiram ao delivery e que esse serviço é um "respiro", mas não resolve o problema do setor. Nas suas contas, desde o início da pandemia, entre bares e restaurantes, 50 mil estabelecimentos deixaram de funcionar definitivamente no Estado. Isso representa cerca de 300 mil trabalhadores na rua, muitos deles microempresários.

Fraqueza.

Os bares e restaurantes que reabriram desde segunda feira tiveram movimento muito fraco, segundo a Abrasel. Por isso, o tradicional restaurante Rei do Filet,  com duas unidades na capital, continuou com os salões fechados e só atendendo por delivery. Carlos Henrique de Freitas, sócio do restaurante, que está há 106 anos no mercado, conta que está adiando  a reabertura.

"É muita exigência para pouco cliente. O povo está com medo, está sem dinheiro e não sei se vale a pena voltar." Ele explica que a decisão envolve não apenas  a falta de clientes, mas funcionários e também a fragilidade financeira da empresa. "Estamos devendo empréstimos e no limite do cheque especial, infelizmente o nosso restaurante está mais para o não vai do que vai."

Alex Atala, dono dos restaurantes Dalva e Dito e do D.O.M, informa por meio de nota, que não tem data prevista para reabertura das duas unidades. A expectativa, segundo ele, é "tentar conter ao máximo os custos para ganhar ao máximo eficiência."

Procurada para saber se os poucos bares e restaurante que reabriram estão seguindo as normas, a Prefeitura informou, por meio de nota, que "a fiscalização do cumprimento dos protocolos se dá por autotutela do próprio setor". Na segunda e terça-feira, a Prefeitura não registrou autuações.

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