Maior tremor do País em 10 anos surpreende especialistas

Choque de placas tectônicas incomum a 215 quilômetros de São Vicente supreende geólogos

da Redação, estadao.com.br

23 de abril de 2008 | 11h16

O terremoto de 5,2 graus na escala Richter registrado na noite de terça-feira, 22, na costa brasileira foi o maior registrado no País em dez anos. Segundo informações do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), o último fenômeno dessa dimensão ocorreu em 1998 na região do município de Porto dos Gaúchos, em Mato Grosso.   VEJA TAMBÉM Tremor rompe tubulação de água em Mogi das Cruzes Maremoto em 1541 deixou rastro de destruição no litoral Terremotos assustam, fazem história e inspiram piadas 'Cadeira se moveu de um lado para outro', diz engenheiro No litoral, tremor assusta a população de Santos Moradores do Rio sentiram abalo por 2 segundos Os dez tremores mais intensos no Brasil     Além disso, o tremor ocorreu em uma região incomum, longe das zonas de contato entre placas tectônicas onde costuma ocorrer esse tipo de abalo e surpreendeu os especialistas. O epicentro, a 215 quilômetros de São Vicente, no litoral paulista, foi bem no meio da Placa Sul-Americana. Esse tipo de tremor, chamado "intraplaca", responde por apenas 10% dos abalos sísmicos globais.   De acordo com o chefe do observatório, Lucas Barros, o fenômeno recente é considerado moderado. "Essa magnitude dificilmente produziria destruição, a menos que ela acontecesse próxima de um centro populoso, onde as residências tivessem má qualidade". O professor lembra que tremores de menor intensidade já causaram danos no país. "Em dezembro, no extremo norte de Minas Gerais um terremoto de magnitude menor (4,9 graus na escala Richter) foi capaz de derrubar muitas casas e produzir danos em muitas outras da comunidade de Caraíbas."   O poder de destruição dos terremotos, explica Barros, está associado a pelo menos quatro fatores: a energia liberada no fenômeno, a proximidade com centros urbanos, a profundidade do foco do tremor e a qualidade das construções. "Em Caraíbas, se as casas fossem de melhor qualidade, por certo não teriam caído. Entretanto, eram muito ruins e o terremoto foi capaz de ruir quase todas."   Risco de novos tremores   Tremores de terra de maior intensidade do que o registrado na noite de terça na costa brasileira podem voltar a ocorrer no País, avalia Barros. O especialista, no entanto, afirma que o abalo sísmico tende a gerar fenômenos menos intensos, chamados de  pós choque. "A grande pergunta que se faz é: pode ter um terremoto maior? Sim. A gente não pode descartar. O que se verifica via de regra é que o sismo que acontece após um choque desse são os pós abalos geralmente de magnitude de até um grau menor", destaca.   O terremoto registrado na noite de ontem atingiu 5,2 graus na escala Richter e foi sentido nos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina. O epicentro do sismo foi registrado no Oceano Atlântico a pouco mais de 200 quilômetros das cidades de São Vicente e do Guarujá, no litoral paulista. "A natureza é meio traiçoeira. O comportamento da sismicidade em um lugar não é igual ao do outro. Então, pode ser que nós venhamos a observar nessa área um comportamento diferenciado e possa haver sismos de magnitude maior. Só que esses sismos são pouco prováveis", avalia. O especialista ressalta a importância dos estudos sismológicos. Ele explica que a ciência é responsável por detectar, localizar e identificar os pontos onde pode haver tremor.   Reflexos do tremor   O fenômeno, que começou às 21 horas de terça-feira e durou cerca de 5 segundos, teve reflexos em dezenas de cidades paulistas e em pelo menos quatro outros Estados - Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. O tremor não deixou nenhuma vítima. Medições feitas no observatório sismológico de Brasília mostram que, nos últimos dez anos, mais de 5 mil abalos foram registrados no País, sendo 400 deles com magnitude igual ou superior a 3 graus na escala Richter.   O local onde ocorreu o sismo surpreendeu o geofísico Rafael Abreu, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Segundo ele, pelos registros do USGS, nunca houve um terremoto num raio de 500 quilômetros daquele ponto - pelo menos desde 1973, quando o serviço americano começou a catalogar esse tipo de evento. "Quando vi o registro não acreditei", disse Abreu, em entrevista por telefone do Centro Nacional de Informações sobre Terremotos do USGS, no Colorado. "Pensei: Será que isso está certo?"   Abreu, que é porto-riquenho, disse que o terremoto, considerado de nível moderado, foi pequeno demais para causar um tsunami (grandes ondas capazes de causar devastação por onde passam, geralmente causadas por terremotos no fundo do mar). Para isso, precisaria chegar a pelo menos 6 ou 7 na escala Richter, e seria necessário um deslocamento vertical de placas do substrato marinho - o que não aconteceu. "Se fosse até o fundo do mar e olhasse, não veria nenhuma cicatriz", disse o especialista Lucas Vieira de Barros, do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB).   Segundo Barros, um tremor dessa magnitude (5,2 graus na escala Richter) pode ser sentido a até 800 km de distância. Ele explica que o catálogo global do USGS é diferente do catálogo regional, e que a UnB tem registro de tremores menores já ocorridos naquela área.   Um abalo de 3,9 na escala Richter no mesmo hipocentro do tremor de terra percebido na terça-feira em São Paulo foi registrado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) no dia 8 de fevereiro. O hipocentro é o ponto em que começa a fratura nas placas tectônicas. Segundo o técnico em sismologia da IAG-USP, José Roberto Barbosa, a repetição do fenômeno em uma mesma região é muito raro e pode ser interpretado como a liberação de uma tensão acumulada resultante da movimentação de placas tectônicas.   O tremor foi o quarto maior já registrado no País. O terremoto mais forte ocorrido no Brasil foi de 6,2 de magnitude na escala Richter. O evento ocorreu em 1955 em Porto dos Gaúchos (MT). No Estado de São Paulo, o maior abalo conhecido foi o que atingiu a cidade de Mogi-Guaçu em 27 de janeiro de 1922, que alcançou 5,1 de magnitude.   (Com informações da Agência Brasil)

Tudo o que sabemos sobre:
terremototremor de terra

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.