Maior musa de Brecheret, 'Juranda' vive na mesma casa, em Pinheiros

Jurandy Helena Brecheret, viúva do escultor, 88 anos

, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

Ele tinha 44 anos, já era um escultor renomado e havia pouco voltara de uma longa temporada europeia - durante a qual viveu com uma francesa. Ela era uma mocinha de 17 anos. Apaixonaram-se, casaram-se e logo Victor Brecheret e Jurandy Helena, mais conhecida pelo apelido Juranda, foram viver numa casa em Pinheiros, zona oeste da cidade. A residência - desenhada pelo próprio artista - era tão moderna para a época que ganhou da população a alcunha maldosa de "caixa d"água".

Juranda nasceu em 1921 em Aimorés, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo, onde seu pai trabalhava no serviço de proteção aos índios. "Provavelmente é daí que vem seu nome, de origem indígena", acredita o engenheiro Victor Brecheret Filho, filho do casal.

Ainda criança, mudou-se com a família para o município de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Lá, seu pai trabalhou na construção de uma adutora. Anos mais tarde, veio definitivamente para São Paulo e conheceu o escultor - sua irmã mais velha era casada com o primo.

"Minha mãe dedicou-se a vida toda ao lar. Meu pai dedicou-se por anos à construção do Monumento às Bandeiras e ela sempre ficava na retaguarda, dando o apoio", conta Brecheret Filho. "Ela deve ter tido alguma dificuldade no início, pois era muito moça, tinha sido criada no interior... De repente estava convivendo com um artista consagrado, que tinha amigos também artistas."

E ela realmente servia de modelo para suas obras femininas? "Olha, é comum dizerem isso. É evidente que, pela convivência, não dá para negar que ela tenha servido de inspiração. Mas não sei se realmente posava para ele", diz. Ele lembra, entretanto, que algumas obras são oficialmente homenagem à mãe. "No Monumento a Duque de Caxias, há uma figura feminina com uma criança no colo. Sou eu nos braços de minha mãe", revela.

No início dos anos 1950, Brecheret resolveu fazer uma longa viagem pela Europa com sua mulher. "Ele já não estava bem de saúde e resolveu mostrar o continente onde viveu para ela", explica o filho. "Foram de navio e ficaram lá cerca de três meses."

Juranda não se casou novamente após a morte do escultor, em 1955, "Ela sofreu muito. Mocinha, viúva, insegura... O mundo dela desapareceu."

Bonecos de batata. Neta de Juranda, a médica Paula Brecheret, de 36 anos, guarda na lembrança momentos divertidos ao lado da avó. "Ela nunca foi aquela pessoa tradicional", afirma. "As histórias que ela contava oscilavam bastante. E nunca tinham final feliz."

Paula recorda-se especialmente das viagens que faziam a um sítio no bairro de Taiaçupeba, em Mogi das Cruzes. "Ela brincava com a gente, fazendo bonequinhos de batata."

Prestes a completar 89 anos, Juranda - com saúde debilitada por causa de Alzheimer avançado - vive na mesma casa "caixa d"água" em Pinheiros. / E.V.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.