Priscila Mengue/Estadão
Priscila Mengue/Estadão

'Maior medo era que atirassem nele', diz tia de rapaz que fez avó de refém

Segundo tia, sobrinho pediu para chamarem a polícia para matá-lo: 'ele dizia que não aguentava mais viver'

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2017 | 13h35

GUARULHOS - Foi de medo e profunda apreensão a madrugada de uma família do bairro Vila Rio de Janeiro, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Entre as 20 horas de segunda-feira, 28, e quase 4 horas do dia seguinte, a avó da família, de 68 anos, teve uma faca em seu pescoço disposta pelo próprio neto, um rapaz de 28 anos.

Entre os familiares, a maior preocupação era com a vida do rapaz, que é portador de doença mental. "Ele dizia que não aguentava mais viver", relata uma das tias do rapaz, a auxiliar de enfermagem Sandra Francisco, de 43 anos. "Ele não faria nada com a minha mãe, não teve briga, nem nada. O nosso maior medo era que atirassem nele", o que não ocorreu.

Segundo a tia, a idosa dormiu durante grande parte da manhã desta terça-feira, devido ao desgaste da situação. "O coitadinho não tem culpa", ressalta Sandra. Outra tia do garoto, a manicure Roseli Francisco, de 45 anos, declarou diversas vezes ao Estado que o rapaz "não cometeu crime" e que a maior preocupação da família é conseguir tratamento adequado para ele, que esteve internado durante todo o mês de junho.

A idosa mora há cerca de três anos no local em que foi feita de refém, um imóvel alugado em que vivia juntamente com o marido, uma das três filhas e uma neta. Já o rapaz morava a poucas quadras dali, tendo ido a pé até a casa da avó.

Segundo a família, o rapaz apontou a faca para a idosa assim que chegou no portão de entrada. Ao entrar no imóvel, se trancou com a avó, enquanto pedia para que sua tia e prima chamassem a polícia. Nesse momento, Sandra obedeceu ao pedido, fazendo o telefonema e, depois, junto da filha, saiu da casa, ficando em frente durante quase toda a madrugada.

Depois de negociações com o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, o rapaz foi atingido por duas balas de borracha, uma no peito e outra nas costas. De lá, foi encaminhado para atendimento na UPA Jardim Paulista, em Guarulhos, e, levado para o Hospital Municipal de Guarulhos, onde permanecia até o início da tarde desta terça-feira para avaliação psiquiátrica.

Histórico. "Minha irmã está nesta vida há quase 10 anos, sempre atrás de internação. Espero que essa situação ajude ele a conseguir tratamento. Infelizmente, teve de chegar nisso para fazerem alguma coisa", diz Sandra. Segundo ela, médicos não chegaram a um diagnóstico conclusivo sobre a situação do rapaz, que já havia cometido quatro tentativas de homicídio. 

A idosa havia retornado para casa quatro dias antes do incidente, após ter acompanhado o velório e o sepultamento da própria mãe, que tinha 87 anos e vivia no Paraná. "Ela cuidou da minha vó, estava muito abalada ainda", relata Sandra.

De acordo com a auxiliar de enfermagem, o rapaz apresentava sinais de doença mental desde os 19 anos, período em que chegou a cursar Jornalismo em São Paulo. "Ele largou de um dia para o outro, depois disso, a situação começou a piorar", comenta. 

Entre a família, são frequentes os elogios de que o rapaz era "muito inteligente" e "muito bonzinho". "Ele era uma criança mesmo, tinha mentalidade de menino. Se falasse uma coisa para ele, ele ficava ansioso, não conseguia dormir", comenta uma das tias.

Relatos. Vizinha da idosa, a aposentada Rosa Amélia, de 62 anos, disse ter acompanhado tudo de sua janela. "Como avó, só consegui descansar depois que vi ele saindo. Estava calmo, com a cabeça baixa. A avó gritava muito", relata.

"Foi muito triste. Eu, como avó, só pensava que precisavam tirar ele de qualquer maneira, sem machucar ninguém", comenta Rosa. Segundo ela, o marido da idosa estava "em choque". "Não saía da frente da casa, ficava parado, em pé o tempo inteiro", diz. 

Moradora do bairro desde 1977, ela comenta que a região tem uma rotina tranquila, com exceção desta semana, em que, na madrugada de domingo para segunda-feira, ocorreu um acidente de trânsito grave, entre uma motocicleta e um carro na mesma esquina.

Já o mecânico Ilton Francisco dos Santos, de 47 anos, comenta que sempre avistava a idosa passar pela rua, andando devagar com uma das filhas. Ele relata ter assistido tudo da própria janela e também pela televisão. "Só ouvi três gritos muito altos, de quando ela saiu. Estava apavorada."

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