FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Maior avião do mundo pode levar até 250 toneladas

Antonov An-225 passou por Campinas e Guarulhos; tamanho da aeronave é ligado à origem militar

Roberto Godoy e Ivan Lopes, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2016 | 21h44

O grande Mryia deveria ter sido um guerreiro, mas virou cegonha de um ônibus espacial que nunca saiu da Terra e acabou assim: é a maior carreta voadora do mundo, capaz de levar a bordo até 250 toneladas, um titã que só sai de casa em Kiev, na Ucrânia, duas ou três vezes por ano, sempre para realizar façanhas, fascinar pessoas e congestionar aeroportos.

Não foi diferente na manhã desta segunda-feira, 14, em Viracopos, a pouco mais de 70 quilômetros de São Paulo. O terminal de passageiros da primeira escala do Antonov An-225 não tem um terraço que permita acompanhar as operações de atracação das aeronaves - todavia, para ver o monstro, desde muito cedo havia centenas de pessoas debaixo de chuva, vento e frio de 15 C°, à beira das estradas que circundam a pista de quase 4 mil metros. O engenheiro Lourival Lucenti com um binóculo de alta precisão estava lá para tirar da frente uma dúvida: o trem de pouso de 32 rodas baixa reto ou é rotativo para aliviar o impacto? “É misto”, constatou, reverente.

O tempo nublado não tirou a euforia de fãs da aviação e de curiosos que vieram de todo Estado. A família de Pablo Henrique Santiago, de 14 anos, acordou às 6h30 em Itu, a 47 quilômetros de Campinas, pegou a estrada e chegou a tempo para ver o pouso da aeronave. “É algo que eu nunca vou me esquecer. Adoro a aviação e não poderia deixar passar esta oportunidade. Valeu muito a pena”, disse o adolescente que quer seguir carreira na área.

O engenheiro civil Lucas Costa veio de Salto, a 42 quilômetros de Campinas, juntamente com a namorada Elen. “É o maior avião do mundo, não poderia deixar de vê-lo. Imaginava que era grande, mas ao vivo é muito maior do que pensava. Uma obra maravilhosa da engenharia”, elogiou.

O diretor de operações de Viracopos, Marcelo Mota, contou que uma preparação especial foi montada a partir da madrugada para receber o avião. “Fizemos um planejamento para controlar o fluxo de pessoas, que sabíamos que seria imenso.”

A aeronave veio de Houston, nos Estados Unidos. Permaneceria até as 22 horas em Campinas e tinha chegada prevista para 23 horas no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Depois seguiria para o Chile, onde entregaria uma estrutura componente de um gerador. 

Militar. O viés militar do avião está diretamente vinculado ao triunfalismo da União Soviética. O gigante foi construído para transportar a 800 km por hora uma tropa Vigor ou Exaltação, duas das possíveis interpretações da palavra Mryia. Um corpo de 180 combatentes, blindados, carros de comando e comunicações, suprimentos - tudo pronto para entrar em ação logo depois do desembarque. Outra aplicação visava ao transporte de longa distância de um míssil intercontinental R-36, com três ogivas nucleares, 32 metros de comprimento, 190 toneladas, preparado para disparo. 

O maior avião do mundo tem 28 anos e teve um único irmão que, entretanto, não chegou a nascer. Estava semipronto no início dos anos 1990 quando a URSS acabou e o bureau de desenho da fabricante Antonov interrompeu o programa. 

O Mryia, desativado, também foi parar em um hangar semidescoberto. Perdeu os motores Progress para cargueiros menores, os An-124. Mais tarde, a partir de 1994, usando partes do segundo modelo e passando por um difícil processo de modernização, voltou a operar.

É em grande parte analógico. Para operar, precisa de uma equipe de 12 a 16 tripulantes. Muito específico, viaja com um estoque de peças e componentes, uma pequena oficina está instalada nos fundos do convés principal. Não tem preço de mercado. Talvez, estimam especialistas de outras empresas, possa ser cotado em US$ 300 milhões. A Rússia e a China retomaram o projeto e pretendem apresentar em 2019 uma configuração completamente nova.

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