Mãe emociona o júri e relata: Jatobá disse que tudo foi culpa de Isabella

Por 6 vezes, Ana Oliveira chorou durante depoimento; no fim, defesa exigiu que ela continuasse na sala, apesar do protesto do promotor

Bruno Tavares, Camilla Haddad, Elvis Pereira, Leandro Calixto e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

23 Março 2010 | 00h00

Alexandre é um homem violento que não se importava com a educação da filha Isabella. Anna Carolina Jatobá tinha ciúmes da menina e era igualmente descontrolada e agressiva. Esse foi o retrato do casal Nardoni traçado por Ana Carolina de Oliveira, a mãe de Isabella, em seu depoimento ontem no 2.º Tribunal do Júri. Ela chorou seis vezes. Seu relato sobre a morte da menina, em março de 2008, emocionou até uma jurada.

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O julgamento do mais rumoroso crime da década começou às 14h17 de ontem. Mas a primeira testemunha só entrou no plenário do tribunal às 19h32. Era Ana Carolina de Oliveira, que passou a ser inquirida pelo juiz Maurício Fossen. Anteriormente, o magistrado alertara aos jurados sobre o que iam escutar e pediu-lhes que, se possível, contivessem as emoções. Quando Ana apanhou o microfone tinha às costas os réus. Alexandre, de óculos, vestia uma camiseta polo e entrelaçava as mãos entre as pernas. Anna Jatobá mexia nos cabelos, ora os prendendo, ora os soltando. Estava com uma calça preta e uma blusa clara e escondia o rosto atrás de uma pilastra da sala.

A mãe começou a descrever a noite do crime. Contou que recebeu um telefonema de Anna Jatobá, que gritava: "Ela foi jogada, ela foi jogada." Ana Oliveira não entendeu o que havia acontecido, mas, em companhia de quatro amigos, foi ao prédio dos Nardonis, o Residencial London, na zona norte de São Paulo. Era noite do dia 28 de março de 2008.

"Anna Jatobá estava na calçada, saltei do carro e, quando fui subir a escada..." A mãe chorou, então, pela primeira vez. "... Aí, eu logo vi minha filha caída na grama, do lado direito de quem entra no prédio. Quando cheguei, eu a vi. Ajoelhei na frente dela. Coloquei a mão no coraçãozinho dela, que batia bem rápido, e o Alexandre gritava para invadir o prédio, que tinha ladrão."

Gritos. Em seu relato, Ana Oliveira disse que a madrasta também gritava. "O resgate não chegava lá, e ela não parava de gritar. Pedi para ela calar a boca que..." E a mãe chorou pela segunda vez. Prosseguiu contando que Anna Jatobá xingou e gritou em resposta que "aquela situação só estava acontecendo pela minha filha, que era por causa dela". Ana contou que foi com a filha na ambulância até a Santa Casa. "Depois de um tempo, já na sala, a médica veio e me disse: "Sua filha morreu"..." Novo choro e o juiz perguntou se ela havia conversado com pai de Isabella naquela noite e depois do crime.

"Ele não me falou nada. Eu não conseguia ficar de pé. Fiquei no chão..." E Ana chorou. A mãe contou como conheceu Alexandre e disse que rompeu com ele porque descobriu que era traída. Isabella tinha 11 meses. Disse que o pai foi certa vez à sua casa armado e disse que ia matar a mãe dela, Rosa, e levar Isabella. Tudo porque não queria ver a menina matriculada em uma escola. Passou, em seguida, a relatar o ciúme que supostamente Anna Jatobá teria dela e da filha. Quando questionada se Isabella tinha algum sonho, novo choro. "Ela queria aprender a ler."

A defesa tentou mostrar que Isabella gostava do pai e pedia para visitá-lo. Quis ainda que Ana confirmasse os cuidados que a madrasta tinha com a menina e perguntou se ela não pensou em aborto ao saber que estava grávida. Às 21h52, quando seu depoimento terminou, Ana Oliveira foi surpreendida por um pedido da defesa. O criminalista Roberto Podval exigiu que ela permanecesse no Fórum, em vez de ser dispensada. "Mas é desumano, ela não tem condições psicológicas", disse o promotor Francisco Cembranelli. Podval insistiu. A lei estava do seu lado. O juiz determinou a permanência da mãe para o caso de ser necessário ouvi-la de novo. Ana deixou a sala do tribunal aos prantos. Foi a sexta vez que a mãe chorou.

CRONOLOGIA

29 de março de 2008

Crime

Isabella Nardoni, de 5 anos, morre ao cair do apartamento do pai e da madrasta

3 de abril de 2008

Pai e madrasta presos O casal é preso, diz que é inocente e divulga cartas declarando amor à menina

11 de abril de 2008

Liberdade

Justiça concede habeas corpus e casal é libertado

18 de abril de 2008

Indiciados

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são indiciados pelo assassinato de Isabella

30 de abril de 2008

Inquérito entregue

Inquérito policial é concluído. Polícia pede prisão preventiva do casal

7 de maio de 2008

Nova prisão decretada

Juiz Maurício Fossen decreta prisão do casal, que responde por homicídio doloso triplamente qualificado

15 de dezembro de 2009

Júri marcado

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Fossen marca a data para o início da sessão

16 de março de 2010

Suspensão negada

O Tribunal de Justiça de São Paulo rejeita habeas corpus para suspender julgamento

SOBE & DESCE

Ana Carolina

Mãe de Isabella

Emocionou os jurados - um deles chegou a enxugar uma lágrima - ao chorar durante seu depoimento.

Roberto Podval

Advogado

Defesa sofreu reveses, como pedido de nulidade negado pelo juiz.

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