Mãe de vítima de Highlanders luta para enterrar o filho

Decapitado em 2008 a caminho da casa da noiva, Roberto foi sepultado como indigente. Quase três anos depois, Terezinha ainda briga na Justiça pelo direito de dar ao caçula enterro decente

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2011 | 00h00

Quando Terezinha viu no chão aquele pedacinho de papel com a letra R, ela soube. A caligrafia era de Roberto, seu filho. Ela tinha visto aquele erre desenhado de maneira infantil na assinatura do rapaz de 20 anos no atestado de antecedentes criminais que era obrigado a tirar de seis em seis meses se quisesse manter o emprego, porque "com pobre é assim".

Terezinha soube que aquela era a pista que o caçula deixara, provavelmente sem querer, antes que fosse sequestrado, torturado e morto, segundo a promotoria, por PMs do grupo de extermínio conhecido como Highlanders, em maio de 2008. Quase três anos depois, Bebé ainda está enterrado como indigente, não tem sequer um R que o identifique na quadra 11, gaveta 1, número 12 do cemitério Recanto do Silêncio, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.

A longa espera da mãe para tirar o corpo do filho Roberto Aparecido Ferreira do anonimato ainda ganhou uma prorrogação nesta semana. O julgamento de Jorge Takiguti, João Bernardo da Silva e Jonas Santos Bento - três dos seis policiais acusados do assassinato de Bebé (veja abaixo) -, que estava marcado para 11 de março, foi adiado em uma semana. E o juiz Antonio Hristov não permitiu que o corpo do jovem seja exumado e transferido para outro cemitério antes do julgamento para evitar que os advogados tentem anular o processo, já que o corpo é prova material do crime.

"Quero dar um enterro para meu filho. Quero um caixão bonito, carregado pelos irmãos, com flores, coroas", diz a mãe. "E quero que o Estado pague tudo. Não quero dinheiro para mim, só para ele." Ela precisa desse dinheiro, porque Bebé era seu arrimo. Trabalhava como ajudante de pintor e de pedreiro no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, havia pouco tempo.

Dia do crime. Naquela noite de segunda-feira, 5 de maio, estava frio e ele chegou em casa às 20 horas. Tinha as mãos sujas de tinta e não quis lavar antes de sair para ver a noiva, Rose. Estava ansioso em levar para ela as alianças que havia encomendado. Eles se casariam na Igreja Mundial no sábado, véspera do Dia das Mães. Bebé pediu a Terezinha a blusa de capuz cinza de que tanto gostava. Prometeu voltar até umas 23 horas. Cinco minutos depois do prazo, a mãe já sentiu que algo estava errado. Saiu à procura do moço alto, negro e de raros olhos azuis, ela garante. Na esquina da Rua Nunes Marques Pereira, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, viu marcas de pneus no asfalto e gelou. Seguiu adiante e ouviu um "psiu". Uma moça, cujo nome ela diz não revelar nem sob faca, descreveu o que viu: "Uma viatura da Força Tática, de prefixo M37016, com dois policiais dentro, seguida por um Gol com mais um policial, espancou o Roberth e deixou o Bebé ir embora. Ele andou alguns metros, mas o policial do Gol foi atrás e obrigou Bebé a entrar e dirigir o carro." Roberth Sandro Gomes era amigo de Bebé, também era negro e tinha antecedentes criminais.

Terezinha registrou um boletim de ocorrência no dia 7 de maio e outro no dia 8. Há informações discrepantes nos documentos, como a presença de um terceiro amigo dos jovens, o Grilo, e a possibilidade de que Rose estivesse grávida, dados que hoje Terezinha não sustenta. O mais insuportável é o desfecho do desaparecimento, descrito assim na denúncia do Ministério Público:

"Os denunciandos ataram as mãos das vítimas Roberth e Roberto e desferiram inúmeros golpes com instrumento perfurocortante contra elas, antingindo-as na região dorsal (Roberth) e nas regiões dorsal e abdominal (Roberto), causando a sua morte. Em seguida, provocaram grande corte na região abdominal do cadáver da vítima Roberth. Ato contínuo, deceparam as cabeças dos cadáveres de ambas as vítimas, separando-as do restante dos corpos, visando a dificultar o seu posterior reconhecimento. Os cadáveres das vítimas Roberth e Roberto foram abandonados num córrego existente no local dos fatos." O local dos fatos é a Avenida Soldado PM Gilberto Augustinho, s/nº, Bairro da Lagoa, Itapecerica da Serra.

Reconhecimento. Quando a Polícia Civil chamou Terezinha, ela soube. As fotos de Bebé estavam espalhadas na mesa, sobrepostas. "Vi os pés dele, não precisei ver o resto. Gritei: "Esse é o pezinho do meu filho! Eu sou mãe, eu sei"." Seu caçula estava enterrado havia quatro dias, como indigente. Seu corpo ainda teve de ser exumado, no dia 29 de abril de 2009, para que fosse feito o exame de DNA. Nem o processo de identidade preciso e tecnológico nem o reconhecimento visceral da mãe lhe rendeu uma identificação na gaveta de cimento. A escola onde Bebé estudou ainda aguarda um atestado de óbito com seu nome para dar baixa na formatura do ensino fundamental que ele concluiu.

Terezinha não teve coragem de procurar o túmulo do filho por muito tempo - foi pela primeira vez ao Recanto do Silêncio na semana passada. Até um ano e meio atrás, estava acamada pela depressão. "Ninguém ofereceu apoio psicológico para essa mãe. Foi uma omissão do Estado. A vida dela estacionou", diz Maíra Diniz, defensora pública que busca uma indenização para Terezinha. Agora, a mãe foi para o outro extremo. Embrutecida, só fala em ódio, em aniquilar os responsáveis por matar seu filho. "Quero justiça. O justo para mim seria prisão perpétua, cadeira elétrica. Mas isso não existe aqui, né?"

Ela se diz ameaçada de morte, por isso não mostra o rosto e mudou de endereço. Mas não vai desistir. Quer levar "nem que sejam só os ossinhos de Bebé" para o Cemitério Parque dos Ipês, também em Itapecerica da Serra, onde está enterrado o avô paterno dele. Os dois eram muito ligados, tanto que quando o avô soube da morte do neto passou mal e morreu no dia seguinte. Terezinha conclui, com raiva e tristeza: "A polícia matou minha família duas vezes."

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