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Maconha e espermatozoides

Um dos maiores estudos sobre os impactos dos hábitos de vida na saúde sexual do homem foi divulgado na semana passada e revelou que usuários de maconha podem estar sob maior risco de ter alterações no formato e na mobilidade de seus espermatozoides, o que diminuiria a fertilidade.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2014 | 02h01

A pesquisa, realizada pelas universidades britânicas de Sheffield e de Manchester e publicada na revista Human Reproduction, avaliou mais de 2 mil homens, recrutados em clínicas de fertilização do Reino Unido. Ela mostrou que a maconha dobra o risco de homens com menos de 30 anos apresentarem menos de 4% de espermatozoides com tamanho e formato adequados - critério que ajuda a definir um possível impacto na fertilidade masculina, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Ainda de acordo com o trabalho, fatores como álcool, cigarro, cueca apertada e obesidade não afetariam a qualidade do sêmen. Já os dias mais longos do verão e ejaculações frequentes poderiam, também, alterar a morfologia (formato) dos espermatozoides.

Aliás, em relação à qualidade do sêmen, outro estudo publicado no último mês na revista Fertility and Sterility, realizado pelas universidades americanas de Columbia e de Rutgers, mostra que o estresse também é prejudicial aos espermatozoides.

Homens que se sentem estressados, mesmo que de forma subjetiva, estão mais propensos a ter menor concentração de espermatozoides em suas ejaculações e de ter mais alterações na forma e na motilidade dos mesmos (capacidade de locomoção). Foram avaliados cerca de 200 homens, entre 38 e 49 anos. Estar desempregado foi um fator frequente de piora da qualidade do sêmen.

Voltando à maconha do estudo inglês, os homens com menos de 30 anos com alterações em seu esperma tinham consumido a droga nos três meses anteriores à coleta do material.

Os cientistas acreditam que algum derivado da maconha e, não a fumaça, é que poderia ter esse efeito no sêmen. No último ano, alguns trabalhos também levantaram suspeita sobre os efeitos da maconha no aumento de casos de tumores de testículo em homens jovens que usavam a droga de forma mais pesada.

Em tempos de discussão da legalização da maconha, em que prós e contras estão sendo avaliados de forma mais cuidadosa, é bom lembrar que, ao lado dos benefícios constatados de alguns derivados para tratamento de uma série de condições clínicas (maconha para uso medicinal), há indícios de alguns riscos, como também acontece com álcool e tabaco, que precisam ser mais bem investigados.

Riscos. Um desses possíveis impactos, que apareceu em alguns trabalhos recentes, é que dirigir depois de usar maconha pode ser tão perigoso quanto guiar após beber.

Os reflexos e o tempo de resposta do condutor podem ficar prejudicados. Uma pesquisa com 315 calouros universitários, da universidade americana de Massachusetts Amherst, publicada no mês passado no Jama Pediatrics, mostrou que 20% deles havia consumido maconha no mês anterior à pesquisa - 44% dos homens e 9% das mulheres tinham dirigido depois de ter feito uso de maconha. Mais da metade dos jovens do sexo masculino e um terço das jovens do sexo feminino tinham pego carona com alguém que tinha fumado maconha.

Outra pesquisa, recentemente divulgada pela Universidade do Colorado, mostrou que, no ano de 2011, em 10% dos acidentes com vítimas fatais naquele Estado, um dos motoristas tinha teste positivo para uso de maconha. Em 1994, esse índice era de 4,5%. O Colorado é um dos Estados americanos em que o consumo recreativo de maconha foi aprovado em 2014.

O resultado reforça a importância de se trabalhar em campanhas e na educação para o trânsito, o impacto que o uso de drogas em geral (não apenas o álcool) pode ter na habilidade de condução do veículo, principalmente entre os mais jovens. Em um momento em que se estuda uma maior flexibilização do uso de maconha em diversos países, esse tema ganha destaque.

*É psiquiatra

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