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Macacos têm aversão à injustiça

Todos sentimos raiva quando injustiçados. Possuímos um senso profundo do que é justo ou injusto. Durante séculos se acreditou que o sentimento de justiça fosse uma característica adquirida pelo Homo sapiens durante sua educação. Nosso lado animal, agressivo e egoísta, seria domado durante a infância, criando adultos justos e capazes de se indignar frente à injustiça.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2014 | 02h02

Mas, em 2003, Frans de Waal publicou um experimento clássico. Colocou dois macacos em jaulas vizinhas e os treinou para que devolvessem pedras colocadas no interior da gaiola. Para cada pedra entregue eles recebiam uma fatia de pepino. Lado a lado, os dois macacos eram capazes de repetir a tarefa inúmeras vezes se saciando com os nacos de pepino. Mas algo espantoso acontecia quando um dos macacos era recompensado com uma uva em vez de uma fatia de pepino. O macaco que recebia a uva ficava feliz e continuava a entregar as pedras. Mas o outro, que podia observar o pagamento superior recebido pelo vizinho (a uva) se revoltava. Parava de entregar a pedra ou atirava o pepino no cientista (https://www.youtube.com/watch?v=meiU6TxysCg).

O macaco que recebia um pagamento menor se recusava a cumprir a tarefa ao observar que seu vizinho recebia um salário maior pelo mesmo trabalho.

Esse experimento mostrou, pela primeira vez, que os macacos têm uma forma de aversão à injustiça. Desde então, experimentos como esse foram aprimorados, sofisticados e repetidos em dezenas de espécies de mamíferos. Agora, Sarah Brosnan e Frans de Waal nos contam o que foi descoberto nos últimos 10 anos.

Logo foi observado que diversos animais têm aversão à injustiça, inclusive os cachorros. Esta característica só foi observada em animais sociais, em que existe cooperação entre indivíduos de uma mesma espécie, como macacos e lobos. Mas esta aversão à injustiça parecia contrariar os interesses do indivíduo. Afinal, para um macaco injustiçado não seria melhor continuar a receber pepino do que passar fome somente para protestar contra a injustiça?

Nos anos seguintes, experimentos mais complexos elucidaram a origem desse comportamento. Em um experimento, dois macacos tinham de acionar duas alavancas simultaneamente para que a comida fosse entregue a ambos. Como um macaco não conseguia acionar as duas alavancas simultaneamente, era necessário que eles cooperassem. Depois que os pares aprendiam a acionar as alavancas no mesmo instante, tudo ia bem, contanto que ambos recebessem o mesmo pagamento (fosse ele miserável ou delicioso). Mas, quando um recebia mais do que o outro, o prejudicado se revoltava e parava de colaborar (exigia o mesmo salário). Para o par auferir os lucros da atividade eles precisavam colaborar. O que recebia menos (pepino) estava forçando o que recebia um salário maior (uvas) a perder junto (algo semelhante a uma greve que afeta o lucro do patrão). Ou ganhamos o mesmo ou perdemos juntos. Com esses experimentos ficou comprovado que a aversão à injustiça é provavelmente um mecanismo biológico importante para garantir a cooperação entre os animais.

Recentemente, um novo tipo de comportamento foi detectado, mas agora somente em chimpanzés e crianças humanas. É a chamada aversão secundária à injustiça. Nesses experimentos, foi demonstrado que em certas situações o chimpanzé ao qual é oferecido o pagamento mais valioso (uva) se recusa a receber o pagamento, a não ser que seu par receba o mesmo pagamento ou um semelhante. Este comportamento é explicado da seguinte maneira: o macaco bem pago é capaz de prever a reação negativa do macaco mal pago. Antevendo essa reação, ele evita a injustiça, apostando na possibilidade de continuar a colaborar com seu parceiro no futuro. Ele abre mão da remuneração maior para garantir o "emprego" de ambos no futuro. Nada mal para um macaco, algo muito difícil de observar entre seres humanos adultos, mas quase automático entre crianças de até 4 anos.

O que estes novos estudos demonstram é que a aversão à injustiça e os comportamentos que garantem a continuidade da colaboração é uma característica biológica, hereditária, e, portanto, independente do aprendizado ou da cultura. A conclusão é que os macacos e o homem já nascem com um instinto de justiça, semelhante ao da fome e ao sexual.

Portanto, é ilusão imaginar que temos de ser educados para nos tornarmos justos. E, pior, se existe uma influência da educação, ela pode ter o efeito oposto. É possível imaginar que a educação ocidental inibe nosso senso inato de justiça, nos transforma em seres competitivos e mesquinhos, que dificilmente trocam uma vantagem econômica pela chance de continuar a colaborar com os parceiros no futuro.

Talvez devêssemos investigar melhor nosso lado animal. Será que encontraremos outras características hereditárias, hoje inibidas pela educação, capazes de nos tornar animais melhores?

* É biólogo

Mais informações: Evolution os Responses to (Un)Fairness. Science vol. 346 pag. 1251776 2014

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