Macacos no espelho

Nenhum ser humano é capaz de observar a própria face. Como os olhos apontam para frente, somos incapazes de observar nossa boca e bochechas. Apesar disso, todos nós reconhecemos a própria face no espelho. Somos uma exceção. Pouquíssimos animais são capazes de se reconhecer no espelho. Mas, agora, um grupo de cientistas ensinou alguns macacos a se reconhecerem no espelho. Após adquirir esse conhecimento, os macacos passaram a se divertir usando o espelho para investigar partes do corpo que nunca tinham observado.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2015 | 02h03

Os animais se espantam, fogem, atacam ou se apavoram quando colocados na frente de um espelho. É comum observarmos pássaros tentando bicar a própria imagem em uma vidraça. Basta um espelho fora do aquário para alguns peixes investirem contra o vidro. Compreender que uma imagem refletida no espelho representa o próprio indivíduo exige um cérebro sofisticado, capaz de criar uma representação abstrata do próprio corpo.

O teste clássico para saber se um macaco se reconhece no espelho é simples. Primeiro, os cientistas colocam um espelho na jaula por vários dias. Depois, uma pequena mancha vermelha, que não seja visível pelo próprio animal, é pintada no seu rosto. O animal é devolvido à jaula e os cientistas observam se o macaco percebe algo diferente em sua imagem no espelho. Se o macaco, após observar sua face pintada, tenta tocar com as mãos o local da mancha, os cientistas consideram que ele é capaz de reconhecer a própria face no espelho. Nesse teste só passam os seres humanos e os nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, gorilas e orangotangos. Os outros macacos não passam no teste.

Para ensinar um grupo de macacos (Macaca mulatta) a reconhecer a própria face no espelho, cientistas colocaram os animais em uma cadeira e imobilizaram sua cabeça (as mãos ficavam livres). Na frente, colocaram um espelho. Em seguida, apontaram um laser vermelho para um ponto fixo na cara do macaco. A mancha vermelha do laser podia ser vista no espelho e a potência do laser era ajustada de modo a aquecer um pouco a pele do macaco, causando um pequeno desconforto. Esse desconforto levava o macaco a passar o dedo no local (essa reação é observada mesmo na ausência do espelho). Com o espelho presente, o macaco observava a mancha vermelha no espelho, sentia o desconforto, levava o dedo ao local e observava no espelho o movimento de sua própria mão. Depois de repetir esse procedimento por mais de um mês (meia hora por dia), os cientistas passaram à segunda fase do experimento.

Agora, o laser era de menor intensidade e não causava desconforto. Mesmo assim, observando no espelho a mancha vermelha, os macacos levavam a mão ao rosto, tocando a mancha. Cinco dos sete macacos testados aprenderam o truque e aparentemente passaram a se reconhecer no espelho. Mesmo após três meses de escola, dois dos macacos não conseguiram aprender o truque.

Aprendizado. Mas o mais interessante é que esses cinco macacos, quando colocados de volta em uma jaula com um espelho, passaram a se observar com grande curiosidade. Primeiro, faziam caretas e se divertiam com elas, identificando círculos pintados pelos cientistas em suas testas. Depois, passaram o observar suas axilas, suas próprias costas, a parte inferior de sua genitália e por fim o próprio ânus. Aos poucos, passaram a usar o que haviam aprendido para aprimorar a imagem mental de seu próprio corpo. Esse comportamento não foi observado nos animais que não haviam aprendido a se reconhecer no espelho.

Os macacos sofreram para aprender a se reconhecer. Em compensação, puderam usar esse aprendizado para se divertir e investigar o próprio corpo. Nada mal. Nossos filhos não precisam ser ensinados a se reconhecer no espelho, aprendem sozinhos antes dos dois anos. Mas todos sabemos como é difícil aprender a ler. Em compensação, uma vez dominada a técnica de leitura, passamos a nos entreter e aumentar nosso conhecimento do mundo. Foi isso que aconteceu com os macacos.

*É BIÓLOGO. MAIS INFORMAÇÕES: MIRROR-INDUCED SELF-DIRECTED BEHAVIORS IN RHESUS MONKEYS AFTER VISUAL-SOMATOSENSORY TRAINING. CURR. BIOL. VOL. 25 PAG. 212 2015

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