Luthier faz cristaleira virar guitarra

Luthier faz cristaleira virar guitarra

Para driblar comércio ilegal de madeira, móveis antigos são transformados em matéria-prima

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 16h42

Hiperativo, apesar dos 50 anos completados neste sábado, o luthier Celso Corraini dorme quatro horas por noite. Ainda de madrugada, se levanta para serrar, pintar e envernizar madeira que, mais tarde, vai ser transformada em instrumentos de corda milimetricamente calculados. No caso dele, guitarras e contrabaixos, sua especialidade.

Para manter o negócio funcionando, contudo, Corraini precisou ser inventivo. O problema é que o comércio de madeiras de lei - a exemplo do cedro, mogno e jacarandá-da-baía, tipicamente usados no confecção de instrumentos musicais - é considerado crime ambiental no Brasil, por serem extraídas de árvores em extinção. A solução que encontrou: comprar móveis antigos, desmontar e, assim, garantir a matéria-prima.

“Viajo para o interior para encontrar mobília e também procuro em sites de venda”, conta. A última aquisição foi uma cristaleira em uma loja de móveis antigos que, de acordo com o cálculo do vendedor, já tinha mais de cem anos. Corraini explica que, para conseguir um instrumento de qualidade, a madeira precisa ter sido extraída há pelo menos algumas décadas. A fórmula é simples. Quanto mais velha, mais compacta. Quanto mais compacta, melhor a propagação do som.

O móvel custou ao luthier cerca de R$ 1,6 mil, mas o investimento vale a pena. Segundo afirma, a madeira pode ser aproveitada para fazer pelo menos sete guitarras. “Cada uma é vendida por R$ 4 mil só com o braço e o corpo, sem a parte elétrica”, diz. O preço alto é justificado pelo trabalho minucioso, que considera do biotipo do músico ao formato do instrumento. Tudo para garantir um timbre específico para o instrumento que demora cerca de dois meses para ficar pronto.

A peregrinação para garimpar mesas, cadeiras, estantes e outros móveis feitos com madeiras nobres também acontece em lojas da zona leste da capital. “Você vai lá com um canivetinho, dá uma raspada - sem o dono ver, lógico - para tirar o verniz e descobrir o tipo de madeira”, explica Corraini. Como vários amigos já sabem da prática, muitos o avisam quando encontram alguma mobília aproveitável, em uma espécie de rede improvisada.

Como o comércio de madeira legal é caro - um jogo de jacarandá-da-baía, por exemplo, custa entre US$ 400 e US$ 800 (cerca de R$ 1 mil e R$ 2 mil) -, os luthiers que fizeram estoque também levam vantagem. É o caso de Walter Gabriel, que constrói violões há quase 30 anos, época em que diz ter comprado um “lote imenso”. “Minha projeção é que a madeira que ainda tenho estocada deve durar mais dez anos”, diz.

Acidente. Corraini é, literalmente, um luthier por acidente. Aos 17 anos, treinava nas categorias de base do Santo André, quando sofreu uma lesão no joelho. Entediado e com a perna engessada, resolveu comprar um violão. Logo depois de se formar em Química, foi trabalhar em uma multinacional de São Caetano. Durante o expediente, outro revés: se intoxicou com amônia. Corraini foi tentar a sorte em lojas de instrumentos musicais ainda na década de 1980. Mas como vendedor e, depois, gerente. Só fabricou seu primeiro instrumento aos 35 anos.

Mais conteúdo sobre:
Luthier São Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.