Imagem José de Souza Martins
Colunista
José de Souza Martins
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Loucos de antigamente

O prédio do Hospício de Alienados ainda está lá, no Parque Dom Pedro II, erguido em taipa socada, vazio e abandonado, à espera de que num dia destes um temporal o ponha abaixo. Entristece as noites paulistanas como fantasma de outros tempos, assombra nossa consciência e nossa desmemória. Mulheres e homens que ali penaram e ali morreram ainda sussurram em seus corredores e cômodos os lamentos de sua solidão e de seu abandono, prisioneiros que foram de sua própria mente. Considerados loucos, foram ali confinados até o fim de seus dias.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h01

"De músico, poeta e louco, todos têm um pouco", diz o refrão popular. Mas, só há pouco mais de 150 anos é que aqui em São Paulo os loucos passaram a ser considerados propriamente loucos, isto é, doentes. Até então, louco era considerado criminoso e colocado na cadeia, junto com ladrões e assassinos. Antes disso, no século 18, loucura era crime contra a religião. Coisa de hereges, de dissidentes e pactários, gente que fizera pacto com o diabo e ficara endemoninhada. Um sapateiro e traficante de escravos, Antonio da Costa Senra, imigrado dos Açores, foi aqui preso em 1782 e enviado para a Inquisição, em Lisboa, para eventualmente ser queimado vivo, porque se considerava enganado por Deus, que o fizera pobre em vez de fazê-lo rico. Dizia coisas sem nexo contra a religião. Era suspeito de ter vendido a alma a satanás em troca de riqueza.

Só em 1851 ganhou corpo a consciência de que loucura é doença e de que os loucos precisavam ser separados dos condenados. Alugou para isso o governo um sobrado na Rua de São João, esquina da Rua Aurora, contratando um médico para tratar dos enfermos. Prédio acanhado e impróprio, foram os loucos transferidos, em 1862, para o casarão ao pé da Rua da Tabatinguera, onde estivera antes o Seminário de Educandos, à beira do Rio Tamanduateí. Com adaptações, é o casarão que lá existe até hoje. Recebia pobres e ricos, escravos e livres, adultos e até crianças consideradas loucas! Muitos, trazidos do interior. Louco era o demente, isto é, o sem mente, e as consideradas pessoas de "miolo amolecido", diziam os diagnósticos da medicina de então, o "miolo mole", da linguagem popular de ainda hoje.

Ali morreu de meningite o poeta abolicionista Paulo Eiró, em 1871, que enlouquecera de amor por uma prima que se casara com outro. Mas ali morreu, em 1876, também louco, seu irmão, o padre Casimiro Antonio de Matos Sales, que fora coadjutor de Santo Amaro e político liberal. Morreram relativamente moços e foram sepultados no Cemitério da Consolação. Em versos de amor, Paulo Eiró dissera: "Pobre! Não chegará à primavera: aguarda sem gemidos, sem um grito, que uma réstia do sol da eterna esfera te arranque ao sonho aflito".

O Hospício foi transferido para uma fazenda no Juqueri, em 1903.

Tudo o que sabemos sobre:
José de Souza Martins

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.