Longa vida para dona Alzira

Dona Alzira não está gostando nada dessa história de que agora, com os avanços da medicina, a gente vai poder viver até os 150 anos. Ouviu na televisão e ficou alarmada: o que é que eu vou fazer, Deus meu, com tanto ano pela frente? Se ainda fosse como no tempo da mãe dela, em que bolo tinha que ser na mão, porque não existia batedeira... Coisas assim, como bater bolo, bem ou mal enchiam o tempo, mais para o bem que para o mal, as pessoas de algum modo iam preenchendo a vida. Aí está uma coisa que dona Alzira não entende - chega a ver uma tremenda contradição nos desígnios do Criador: de um lado, Ele nos dá facilidades destinadas a poupar tempo e esforço, como a batedeira de bolo, mas de outro permite que os cientistas estiquem a nossa vida, tornando cada vez mais difícil a peleja para preencher todos esses dias, semanas, meses... Haja bolo!

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2011 | 00h00

Para não falar em outros problemas que o esticamento da existência humana poderá trazer. A tal da Terceira Idade, por exemplo, que parecia ser a última escala, como é que fica? Muito mais comprida que a primeira e a segunda? Ou teremos que ter a Quarta, a Quinta, a Melhoríssima Idade, com aquele espetáculo deprimente de velhos e velhas arranjando namoro em arrasta-pé geriátrico? Com o devido respeito, Senhor, vá entendê-Lo! Que nem na canção do Roberto: eu não consigo entender Sua lógica!

Dona Alzira está batendo nos 70 - e, depois de tanta canseira, eis que de repente é informada, no Bom Dia Brasil, de que talvez lhe caiba viver mais 80. Tudo o que já viveu, e mais dez! Ah, isso é que não! Já pensou, para começar, mais oito décadas ao lado do Valter? Bodas de quê, isso? Não sobra metal nem pedra para tão comprido matrimônio. É o que mais a apavora, a prorrogação do calvário doméstico - aquele estafermo sentado ali na sala o dia inteiro, fumando o tempo todo enquanto vê porcariada com a televisãozinha no colo. Os berros dele querendo cerveja, mais cerveja, com as consequentes idas ao banheiro, arrastando as chinelas, para o ruidoso desembarque hídrico, digamos assim. O netinho, feliz da vida, já entregou - até para as visitas sai contando que a vovó joga álcool e toca fogo na privada depois que o vovô passa por lá. Se ao menos a ciência, em vez de apenas espichar a vida, providenciasse também um sistema de autoflambagem sanitária...

Mas será que é verdade mesmo?, pensa dona Alzira, agarrando-se à esperança de que o Bom Dia Brasil, o Renato Machado e os cientistas estejam enganados. Já não aconteceu? Quantas vezes essa gente condenou o ovo, por exemplo, o pobre ovo de galinha, acusado de entupir nossas artérias, para depois absolvê-lo, e depois condená-lo outra vez, interminavelmente, feito omelete que se vira e se revira, pra lá e pra cá na frigideira, até cozinhar direito dos dois lados? De repente não pode manteiga, depois pode manteiga, pode sal, não pode sal. Quem sabe esse papo de 150 anos de vida não é mais uma lorota, simplesmente?

Mas e se não for? É isso que assusta e aflige dona Alzira, a possibilidade de que se trate de novidade duradoura. Sim, porque algumas coisas chegam e ficam. Não deu agora para ter o tal de tsunami? No mesmo dia, aliás, em que soube que talvez tenha de gramar mais 80 anos neste mundo, ela leu outra novidade ruim no jornal: um córrego em São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, congelou. Não, já não nos basta aquela nevinha rala caindo em São Joaquim, em cima de uns bocós que pulam de contentes. Será que o Brasil, depois de velho, deu agora pra essas coisas? Se pode corgo congelado, quem garante que daqui a pouco não vamos ter também uns tsunamis?

Naquele maldito dia, para completar, Dona Alzira leu ainda que na Coreia do Sul um tal doutor In Ho Choi, não um qualquer, professor da universidade, veio com esta: quanto menor o dedo indicador em relação ao anular, maior é o órgão sexual masculino quando ereto. Ereto! Aonde vamos parar? - e dona Alzira, passada, pretérita, desde já avisa que não vai mais reparar em mão de homem nenhum, e muito menos apertar, embora admita, enojada, que no caso do Valter a teoria do coreano, se bem se lembra, se confirma, só não informa se para cima ou para baixo.

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