Filipe Araujo/AE
Filipe Araujo/AE

Lixo ocupa 8 km das margens da Billings

Ambientalista propôs ação contra Estado e Prefeitura, cobrando a limpeza da área

Eduardo Reina, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2010 | 00h00

A Represa Billings, um dos principais reservatórios da Região Metropolitana de São Paulo, tem mais de 8 quilômetros de margens tomados por toneladas de lixo. Isso é o equivalente a duas voltas completas no Autódromo de Interlagos. O problema fica mais visível com o nível baixo das águas.

A mancha de detritos - garrafas plásticas, papel, madeira, móveis inteiros e todo tipo de sujeira, além de esgoto in natura - se estende do Cantinho do Céu, na região do Grajaú, zona sul da capital, a Diadema, no ABC.

Uma das piores partes, um braço da Billings com mais de 2,5 quilômetros quadrados, fica entre o Jardim Apurá e o Balneário São Francisco, no bairro da Pedreira, zona sul de São Paulo. Nessa localidade, o cheiro dos detritos em decomposição e de esgoto é bastante forte.

Urubus sobrevoam a imensidão de sujeira e valas de esgoto ao ar livre cortam ruas das comunidades e deságuam diretamente no manancial. Junto com esses dejetos escorre também lixo e calçadas são tomadas por entulho e sujeira. As fortes chuvas dos últimos dias apenas encobriram um pouco o tamanho do problema, como se empurrasse o lixo para debaixo do tapete.

A situação dramática levou o advogado e ambientalista Virgílio Alcides de Farias a ingressar com uma ação civil pública na Justiça para impedir a continuidade do bombeamento das águas sem tratamento do Rio Pinheiros para a Billings, exigir a remoção imediata do entulho na represa, além de iniciar operação em estações elevatórias de esgotos na região, para evitar o despejo de detritos residenciais nas águas do manancial.

"Se você enfiar uma vara no chão, nesse trecho da represa, ela afunda quase 1 metro. Isso significa que há 1 metro de lodo fecal. Fora o lixo acumulado. O bombeamento das águas contaminadas do Rio Pinheiros não pode continuar sem que seja feito o tratamento adequado. Estão sendo desrespeitadas as Constituições Federal e Estadual", argumenta Farias. A ação é contra a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), concessionária de serviço público de geração de energia elétrica na capital e responsável pela represa. Também foram acionadas a Prefeitura de São Paulo e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

Origem do lixo. Basta andar pelas ruas do Balneário São Francisco para ver lixo e entulho nas calçadas. É o caso da Rua Sebastião Ferreira, uma pequena travessa da Avenida das Garoupas, onde tudo é precário. Lá a placa de identificação foi pintada pelos moradores. A rua não existe oficialmente. Casas se espremem em vielas, com janelas à beira da via. Lixo se acumula nas estreitas calçadas. Há uma vala que recebe canos das casas e escorre 24 horas um líquido fétido: esgoto.

A coleta de lixo é feita três vezes por semana. Mas é possível ver sacos com detritos a qualquer hora na via pública. "A gente procura colocar o lixo na rua, no dia que o lixeiro passa. Mas nem todo mundo é assim. Tem gente que comprou sofá novo e jogou o velho lá na frente. Adivinha onde isso vai parar?", indaga a dona de casa Maria Filomena de Souza, que se mudou para o bairro há cinco anos.

Há 30 anos no bairro, Pedro Luiz Ribeiro diz que o problema do lixo na Billings nesse trecho é recorrente. A parte onde ele mora abriga casas com quintais e árvores e os moradores são mais organizados. Conseguiram até construir uma pista de corrida à beira da represa. "O poder público é totalmente omisso. Sempre reclamamos, pedimos providências e nada acontece. Mas tem responsabilidade também a população, que mora nos morros, na Favela Nova Pantanal e em outras áreas invadidas. O lixo e o esgoto descem desses locais e caem na represa. Há anos fizemos um projeto para tentar resolver o problema e enviamos à Emae. Nada foi feito."

Ribeiro conta que o lixo começou a se avolumar na Billings há 15 anos, quando os bairros das redondezas cresceram com as invasões. "Os córregos viraram esgoto. Mas também é só encher o Rio Pinheiros que bombeiam tudo para cá. O resultado é esse aí: a sujeira e o esgoto mataram a represa."

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Jefferson de Oliveira

PROFESSOR DO LABORATÓRIO DE HIDROLOGIA E HIDROMETRIA DA UNESP

1.Qual a solução para esse acúmulo de lixo? Seria importante contê-lo com um sistema frequente de dragagem. Também é importante fazer coleta e tratamento de esgotos, efluentes e da água da drenagem urbana.

2.Há algum bom exemplo? Em Porto Alegre há um experimento que colocou grades e gaiolas em riachos para não deixar o lixo ir para represas. Nos Estados Unidos, na cidade de Palo Alto, há controle muito grande, com avisos em toda a parte para não jogar lixo nas ruas, que pode ir para a Baia de San Francisco.

3.E os programas de educação ambiental?

São necessários. Mas o problema é a comodidade das pessoas em descartar lixo em qualquer lugar. A penalização de quem joga lixo e entulho na rua é necessária. Mas não somente o cidadão: empresas também devem ser autuadas por manter areia, cascalho e outros detritos em locais de fácil escoamento para as galerias de água pluvial. Além disso, é preciso fazer a ligação da rede de esgoto das casas com a de tratamento. Depois, deve-se controlar a chegada da água na represa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.