Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Lixo faz barco perder de carro em corrida no Tietê

Mercedes-Benz vence disputa com velocidade média de 30 km/h na Marginal. Lancha teve hélice quebrada por pedaço de madeira

Cida Alves, especial para o Estado

10 Outubro 2011 | 23h46

SÃO PAULO - Uma potente lancha de 11 metros de comprimento e três motores, de 300 cavalos cada um, não pôde com o mar de lixo do Rio Tietê e perdeu uma corrida de 24 quilômetros do Cebolão até a Ponte das Bandeiras, ontem. O oponente era um carro Mercedes-Benz que fez o mesmo trajeto pela Marginal do Tietê, no horário de pico da manhã.

O desafio foi promovido pelos organizadores do São Paulo Boat Show, salão náutico que terá sua 14.ª edição de quinta-feira até a próxima terça-feira, em São Paulo. O evento tem como rádio oficial a Rádio Eldorado e apoio da Rádio Estadão ESPN.

O objetivo da ação era conferir qual era a via mais rápida para cruzar a cidade: o rio ou a marginal. Na largada do percurso, de ida e volta, a lancha prometia um bom desempenho.

A boa arrancada - a mais de 60 km/h - durou pouco tempo. Logo um dos motores foi comprometido por um pedaço de madeira, que quebrou a hélice.

Poucos metros à frente, os outros dois motores começaram a soltar fumaça. A grande quantidade de sacolas plásticas, garrafas PET e todo tipo de lixo flutuante no rio entupiu o sistema de refrigeração, causando superaquecimento. Resultado: a lancha não conseguiu completar nem o primeiro trecho e teve de ser rebocada até o local da largada por um barco menor.

Com a lancha principal fora da corrida, o jeito foi comparar o desempenho do carro com o das outras duas embarcações de apoio. Ainda assim, a poluição deu vantagem para o carro.

No balanço final, o percurso inteiro durou 1h06 sobre quatro rodas. Pelo rio, foram oito minutos a mais, com o percurso finalizado em 1h14. Isso em um trajeto menor, já que as lanchas não conseguiram chegar até a Ponte das Bandeiras, mais uma vez por culpa da poluição. Ambas precisaram parar mais de uma vez para tirar o lixo que travava o motor.

O resultado foi considerado surpreendente, inclusive, para quem conduzia o carro do desafio, o piloto de avião Davi Caran. "Vim acreditando que a lancha ganharia, pois já sabemos como é o trânsito de São Paulo e, no rio, é trajeto em linha reta." Durante o percurso, o Mercedes teve velocidade média de 30 km/h.

"Mais do que promover uma disputa, nosso objetivo era fazer um alerta para que se crie uma São Paulo mais navegável", afirma o organizador do evento, Ernani Paciornik, para quem as dificuldades de navegação no rio em razão da poluição fazem a cidade desperdiçar uma alternativa ao trânsito engarrafado.

Paciornik acrescentou que São Paulo tem mais de 50 quilômetros de rios inativos que poderiam contribuir para desafogar o trânsito e aumentar o potencial turístico da capital.

"Temos de nos espelhar em projetos de despoluição que aproveitam o sistema fluvial das cidades. Vamos transformar São Paulo em uma Manhattan. Por que não?", questiona Paciornik.

Quase 20 anos depois do lançamento da campanha de despoluição do rio pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp), 41% dos 338 pontos de coleta das Bacias do Alto e Médio Tietê ainda estão classificadas como "ruim".

A promessa é que, até 2015, os 30 quilômetros do rio que passam pela capital já tenham vida aquática - e outros 30 quilômetros deixem de cheirar mal.

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