Livro mostra o espírito paulista

Saiu da oficina um livro que joga luz no perfil dos paulistas. Obra nasceu em reunião na casa do professor Nilo Odalia (já morto) na qual estavam pesquisadores como Emilia Viotti da Costa. Leia abaixo a entrevista com o historiador João Ricardo de Castro Caldeira, um dos formuladores de História do Estado de São Paulo: A Formação da Unidade Paulista (Unesp, Imprensa Oficial e Arquivo Público do Estado, 2010):

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

O que diferencia São Paulo dos demais Estados brasileiros?

Entre as singularidades de São Paulo, pode-se destacar: razoável autonomia frente ao governo central; ponderável dispersão espacial da sua riqueza, presente tanto na capital como em cidades do interior; existência de elites que em diversos momentos da História tomaram importantes medidas de interesse público, e não apenas privado; apreciável projeção internacional, que a torna o principal elo do Brasil com o mundo.

Qual o impacto da explosão populacional da capital nesse processo?

Creio que a questão, nesse caso, está invertida: São Paulo é um forte polo de atração populacional desde que se tornou o mais importante centro do capitalismo no Brasil - uma de suas singularidades -, processo iniciado sobretudo a partir de 1850, e que não teve interrupção até o presente, quando o Estado continua recebendo importantes levas migratórias, que se dirigem tanto para a capital como para o interior.

A "locomotiva" paulista continua no ritmo da década de 1950?

A "locomotiva" está num ritmo mais acelerado. Em termos econômicos, São Paulo ainda concentra a parte mais expressiva da produção da riqueza nacional, mas o Estado se tornou também, ao longo do tempo, um centro cultural de relevância internacional, no qual as mais diversas "tribos" se encontram representadas, em festivais, bienais, museus, espaços culturais diversos, etc. São Paulo impulsiona tanto a produção econômica quanto a produção intelectual e cultural do País.

São Paulo bebeu em fonte europeia por muito tempo. Quando isso deixa de ocorrer?

Em São Paulo, desde o período colonial, começou a conformar-se uma sociedade de caráter específico, inicialmente por causa da combinação de elementos das culturas europeia e indígena. A maior presença do escravo africano a partir do século 19 e a imigração estrangeira, vinda não apenas da Europa, para a região, a partir da segunda metade daquele século, acentuaram esse processo de mistura cultural, que prosseguiu ao longo do século 20 e continua atualmente, com as migrações internas e a imigração latino-americana, contribuindo para configurar aquela que é uma das principais singularidades paulistas frente às demais unidades da federação brasileira: o seu caráter cosmopolita.

Quem melhor traduz o espírito paulista no século 20?

Não gostaria de cometer injustiças, mas se puder citar nomes, gostaria de destacar Antonio Ermírio de Moraes, Alfredo de Mesquita, Assis Chateaubriand, Carlos Alberto de Carvalho Pinto, Fernando Gasparian, José Mindlin e Mário de Andrade. Não esquecendo que houve e ainda há em São Paulo intelectuais, artistas e uma massa anônima imbuídos desse mesmo espírito.

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