Liturgia da arte no HC

Três grandes artistas brasileiros deram uma mão para compor o recolhido silêncio da capela do Hospital das Clínicas, no 11.º andar do Instituto Central, na Avenida Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, zona oeste de São Paulo: Victor Brecheret (1894-1955), Fúlvio Pennacchi (1905-1992) e Di Cavalcanti (1897-1976).

José Souza Martins, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2010 | 00h00

Inaugurada em 1945, sua idealização veio de Dom José Gaspar (1901-1943), arcebispo de São Paulo. Mas a capela é ecumênica, pois está instalada em recinto público, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Atende a diversidade religiosa dos aflitos que nela se recolhem nos momentos de apreensão e dor, que são também momentos de esperança.

Esse ecumenismo está intensamente presente nas obras de arte que fazem da capela um dos mais densos espaços artísticos da cidade de São Paulo e dos mais visitados por pessoas que não frequentam os museus. Ali, as obras de arte são mais de veneração do que de admiração, mediações da esperança em que a densidade simbólica do belo dá forma visível a crenças e sentimentos. Obras em que os artistas assumem a função sacerdotal associada aos objetos litúrgicos. Coisa que, via de regra, não acontece nos museus.

A simbologia da capela está centrada no tema da esperança. A começar do Divino Espírito Santo, de Fúlvio Pennacchi, que espraia sua luz dourada sobre a vigorosa escultura de Cristo Crucificado de Victor Brecheret. Um dos vitrais, baseados em desenhos de Di Cavalcanti, retoma o tema do Espírito Santo.

Se combinaram ou não, não se sabe. Mas, a seu modo, a capela celebra a fortíssima tradição joaquimita do catolicismo popular brasileiro, a das Folias do Divino, herança da utopia da esperança na fartura e na alegria, da teologia de Gioacchino Da Fiore (1132-1202), monge cisterciense que viveu na Calábria na época de São Francisco (1182-1226). Formulador da concepção trinitária da História, que por meio da obra de Augusto Comte e de Hegel, teve sua influência na formação da USP, na Faculdade de Filosofia. Não é casual, porque Pennachi é o autor de algumas das mais belas concepções do santo de Assis na pintura brasileira.

O tema se desdobra. O São Paulo de bronze de Brecheret, no fundo da capela, pacifica com a mão esquerda a espada da sua degola e com a mão direita alçada repete o gesto do Cristo triunfante da Ressurreição. Dois afrescos de Pennachi negam suavemente o sofrimento e a morte: o anjo da Anunciação dissemina vida no aposento da Escolhida; e o Ressuscitado vence o banal do cotidiano de uma estalagem do caminho de Emaús (na obra Ceia de Hemmaus).

Mas é na sucessão das 14 estações da Via Crúcis, de Pennacchi, originalmente de terracota, hoje de bronze, que tem sentido o fluir da vida dos que estão no limite, nas quedas de Cristo e na fraterna solidariedade dos que o amparam, o sofrimento do eu vencido pela ternura do nós.

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