Daniel Teixeira/Estadão - 03/02/2022
Daniel Teixeira/Estadão - 03/02/2022

Linha 6-Laranja do Metrô espalha canteiros de obras e muda rotina de três regiões de SP

Moradores das áreas central, norte e oeste convivem com interdições, barulho das máquinas e até o Vai-Vai trocou endereço; cratera na Marginal fica perto da escavação

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 14h00

Em questão de meses, a paisagem das regiões central, oeste e norte da cidade de São Paulo mudou. As promessas acumuladas ao longo de mais de uma década de criação da Linha 6-Laranja do Metrô voltaram a andar. Isso ocorre após protestos, paradas, atrasos, mudança de consórcio responsável e outros problemas – agora novos obstáculos, como a cratera aberta na Marginal do Tietê após vazamento de esgoto em área onde ocorria o trabalho de escavação de túnel. 

A megaobra espalhou 15 canteiros pela cidade, da Brasilândia à Liberdade, surpreendendo quem circulou menos nas ruas na pandemia. Basta andar algumas quadras para ver um trecho isolado por tapumes, com demolições, interdições de vias e maquinário em operação onde antes havia de tudo: casinhas, comércios, postos de gasolina, restaurantes de bairro e até a quadra de uma tradicional escola de samba.

“É o progresso”, como os diretores do Vai-Vai descreveram ao anunciar a despedida do endereço ocupado por 50 anos. Após a fase das desapropriações e demolições, as mudanças seguirão com a construção da infraestrutura metroviária (pátio de manobras em uma represa desativada, 15 estações e 18 poços de ventilação e saída de emergência), o aumento de fluxo de pessoas e o impacto imobiliário.

As obras são de responsabilidade do consórcio Linha Universidade, liderada pela empresa espanhola Acciona. Em coletiva de imprensa na última semana, o diretor da Acciona no País, André De Angelo, destacou que a implementação da linha segue nos demais pontos e não vai parar após o surgimento da cratera, que descreveu como “acidente pontual”. Segundo ele, são mais de 30 frentes de serviços.

Desde os anos 1970, o centro não recebia tantas construções de estações, obras que feitas agora em contexto social e tecnológico distinto. Além disso, a linha mais recente da rede (a 5-Lilás) começou a ser entregue há cinco anos, enquanto a anterior (4-Amarela) entregou estações aos poucos. O plano é que a Laranja tenha as inaugurações simultâneas.

Transformação

A linha contempla 15,2 quilômetros, que abrangem endereços com características socioeconômicas, oferta de mobilidade e urbanização heterogêneas, com urbanização tanto mais recente quanto mais consolidada. Por ser uma área em desenvolvimento urbano mais recente, o urbanista Kazuo Nakano aponta que a zona norte provavelmente será a que mais se transformará por causa da expansão do metrô.

“O impacto não é só positivo”, pondera. “A valorização pode expulsar moradores (pelo custo de vida) e forçar deslocamentos (populacionais) para outras áreas periféricas. A valorização imobiliária aumenta o preço do aluguel”, diz. Entre imóveis já existentes e lançamentos imobiliários, torna-se comum destacar em anúncios a localização nas proximidades das futuras estações. 

Por outro lado, a atratividade no mercado também propicia ampliar a oferta de comércio e serviços, o adensamento populacional e a verticalização (gerando a substituição de locais onde hoje há casas e sobrados em edifícios de mais pavimentos). O resultado é a criar ou impulsionar novas centralidades, reduzindo a necessidade de deslocamentos para outras partes da cidade.

“O impacto de um metrô em um bairro periférico é muito mais visível. Os trechos mais centrais incluem bairros de classe média, de média alta, como Perdizes e Higienópolis”, compara Nakano, professor no Instituto das Cidades, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

“Nos bairros de classe média, o impacto será principalmente na diminuição dos congestionamentos, do trânsito”, comenta ele, embora lembre que o mercado imobiliário valorize a presença de uma estação também nestes locais.

Diferentemente das linhas da CPTM e do Metrô existentes, que atravessam as marginais pela superfície, a Laranja será subterrânea também no entorno do Rio Tietê. Significa menor criação de espaços urbanos residuais, como baixos de viadutos. Além disso, grande parte das estações serão mais profundas que o habitual, especialmente a Higienópolis-Mackenzie, de 69 metros (mais do que o dobro que a Pinheiros, por exemplo).

Como aponta o urbanista Valter Caldana, professor na Universidade Mackenzie, a relação das estações com o entorno também é crucial para o planejamento urbano. Ele cita como exemplos projetos municipais pensados paralelamente à expansão da Linha 1-Azul pela zona norte e estações do mesmo ramal no centro expandido, que incluem espaços de integração com a vizinhança (como a praça e o acesso da Estação Liberdade) e qualificados com equipamentos públicos (como a Estação Vergueiro, erguida junto ao Centro Cultural São Paulo).

Ruído

O relatório de impacto ambiental da Linha Laranja, de 2012, aponta 28 impactos diferentes possíveis, dos quais 23 são negativos antes, durante ou depois da implantação, como poluição sonora durante a obra, “geração de ansiedade na população” (causados pelas incertezas no andamento e encarecimento da área, por exemplo), possibilidade de acidentes e outros, cuja prevenção é determinada em planos específicos.

Outro efeito visível é na paisagem histórica. No entorno da futura Estação Bela Vista, a obra foi autorizada a demolir parcialmente um casarão e um sobrado tombados, com a condição de que sejam em parte reconstruídos, mantendo a fachada frontal original.

Uma das maiores queixas por vizinhos das obras é o barulho noturno, especialmente no distrito de Perdizes. Um abaixo-assinado online foi criado, com mais de 300 assinaturas, mas outros movimentos querem recolher assinaturas presencialmente.

“É uma situação difícil. Não para o apito, o barulho das máquinas gigantes, o barulho do gerador, a fumaça”, diz a moradora das proximidades da Estação Sesc Pompeia, a pesquisadora Ana Maroso Alves, de 38 anos. Hoje, ela diz só dormir se ligar ventilador para abafar a poluição sonora, mas é inviável evitar totalmente os ruídos. Segundo Ana, que relata episódios fortes de dor de cabeça, a vizinhança convive com isso há quase três meses. 

Como Ana, o publicitário Yuri Esteves, de 27 anos, não é contrário à estação na sua vizinhança, mas na forma como ocorre. Ele descreve a experiência de ser vizinho da futura Estação PUC-Cardoso de Almeida como “horrível”.  “Você perde muitas horas de sono, mesmo. A saúde mental também é impactada pelo barulho. O que precisa mudar é o horário da obra: hoje, ela começa por volta das 6h da manhã e vai até 22h, 23h...É fora do normal." E mesmo com a obra em andamento, não é otimista quanto à entrega. “Não tinha expectativas e não sabia sobre os prazos e atrasos, mas acredito que, ainda que abra mesmo, deve demorar muito", diz.

Morador do entorno da Estação João Paulo I, o arquiteto Ênio Silva, de 66 anos, também se preocupa se a cratera irá novamente impactar o cronograma da obra, cuja parada anterior critica. Ele também diz ser importante que, além do metrô, a área no trecho mais ao norte ganhe estrutura e serviços. “São bairros totalmente carentes de opções."

Procurado pelo Estadão, o Consórcio Linha Universidade enviou nota em que aponta cumprir a regulamentação referente a níveis de emissão sonora em obras civis, “comunicando antecipadamente a possível ocorrência de ruídos no entorno dos canteiros e adotando medidas mitigadoras”. O consórcio não detalhou quando será retomada a obra na área do acidente nem divulgou ajustes do cronograma.

Construção sofreu com atrasos e entrega é prevista para 2025

Após quatro anos parada, a construção da “linha das universidades” – o nome é por passar perto de PUC, Mackenzie, Faap e outras – foi retomada em outubro de 2020. Agora está a cargo de consórcio liderado pela Acciona – no lugar da Move São Paulo, que desistiu da obra. Terá 15,3 km de extensão, com 15 estações, da Brasilândia (zona norte), à Liberdade (centro) e deve transportar 633 mil pessoas por dia. Desde o anúncio, a linha teve vários prazos de conclusão previstos: 2018, 2020, 2021 e, agora, 2025.

Veja as características das futuras estações a seguir:

Estação Brasilândia

Terá 32 metros de profundidade. A obra abrange uma área onde antes havia dezenas de casas. Incluirá um terminal de integração para linhas de ônibus. Segundo balanço de dezembro da concessionária, está 18,7% pronta. Endereço: Estrada do Sabão, 1.333 - distrito Freguesia do Ó (de acordo com limites administrativos municipais)

Estação Vila Cardoso

Terá 38 metros de profundidade. Localizada onde havia um sacolão da Prefeitura, transferido. Está com 1,87% da obra concluída. Também contará com um terminal de ônibus interligado. Endereço: Estrada do Sabão, 711 - distrito Freguesia do Ó

Estação Itaberaba - Hospital Vila Penteado

Terá 68 metros de profundidade. Está 11,18% concluída. Endereço: Rua Diadema, 29 - distrito Freguesia do Ó

Estação João Paulo I 

Terá 48 metros de profundidade Também inclui a construção de um terminal para a integração com as linhas de ônibus. O andamento está em 16,38% da obra. Endereço: Rua Ameliópolis, 272 - distrito Freguesia do Ó.

Estação Freguesia do Ó

Estará a 38 metros de profundidade. Estágio da obra: 14,63% concluída. Endereço: Avenida Miguel Conejo, 201 - distrito Freguesia do Ó. 

Estação Santa Marina

Com 28 metros de profundidade. Localizada em uma região historicamente industrial, com poucas residências. É uma das mais avançadas, com 30,93% do total concluído em balanço anterior à abertura da cratera nas imediações. Endereço: Avenida Santa Marina, 1.179 - distrito Lapa.

Estação Água Branca

Terá 44 metros de profundidade, incluindo uma conexão com a Linha 7-Rubi. É a mais avançada, com 31,13% pronta. Endereço: Avenida Santa Marina, 404 - distrito Lapa.

Estação Sesc Pompeia

Com 28 metros de profundidade. É localizada ao lado do Sesc. Conclusão: 4,6%. Endereço: Rua Venâncio Aires, 641 - distrito Perdizes (de acordo com limites administrativos municipais)

Estação Perdizes

Com 28 metros de profundidade. Está 3,57% completa. Endereço: Rua Apinajés, 67 - distrito Perdizes. 

Estação PUC-Cardoso de Almeida

Terá 61 metros de profundidade. Conclusão: 10,68%. Endereço: Rua Cardoso de Almeida, 972 - distrito Perdizes.

Estação Faap-Pacaembu

É a estação que foi alvo de protestos contrários e favoráveis, conhecida pelo “Churrasco da gente diferenciada”. Terá 58 metros de profundidade. Conclusão: 0,22%. Endereço: Rua Sergipe, 799 - distrito Consolação (de acordo com limites administrativos municipais).

Estação Higienópolis Mackenzie

É a mais profunda, com 69 metros. Terá interligação com a Linha 4-Amarela. Conclusão: 0,33%. Endereço: Rua da Consolação, 1.379 - distrito Consolação.

Estação 14 Bis

Com 45 metros de profundidade, inclui o terreno da quadra ocupada por 50 anos pelo Vai-Vai. Está 0,22% concluída. Endereço: Rua Doutor Lourenço Granato, 39 - distrito Bela Vista.

Estação Bela Vista

Com 59 metros de profundidade, inclui o terreno de um casarão e um sobrado tombados, parcialmente demolidos. Está 0,49% pronta. Endereço: Rua Pedroso, 628 - distrito Bela Vista.

Estação São Joaquim

Com 54 metros de profundidade. Terá interligação com a Linha 1-Azul.Conclusão: 0,59%. Endereço: Avenida da Liberdade, 991 - distrito Liberdade.

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