Lideranças viram cabo eleitoral em São Paulo

Durante campanha, chefes de movimentos pedem votos para candidatos do PT

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2013 | 02h07

Com trânsito fácil entre governantes de alto escalão e receita própria obtida com a mensalidade de associados, os movimentos de moradia de São Paulo negociam seu apoio a políticos do PT a cada eleição. Ao contrário dos anos 1990 e 2000, quando algumas dessas entidades eram comandadas por deputados e vereadores petistas, hoje seus dirigentes são influentes o suficiente para conseguir agendas e audiências com a presidente Dilma Rousseff (PT), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT).

Nas eleições do ano passado, pelo menos três vereadores petistas - Juliana Cardoso, Nabil Bonduki e Alfredinho - tiveram o apoio de entidades de moradia para obter a vitória nas urnas. Também do partido, o deputado federal Simão Pedro e o estadual Luiz Cláudio Marcolino tiveram com o apoio de líderes dos sem-teto nas eleições de 2010.

"Nas últimas eleições nós fizemos campanha para o Nabil (Bonduki), mas eu gosto mesmo e tenho simpatia é pela Juliana (Cardoso)", afirma Vani Poletti, do Movimento Habitação e Ação Social (Mohas), com sede na região de Cidade Ademar, na zona sul da capital. Ela afirma estar insatisfeita com o fato de o PP do deputado federal Paulo Maluf ter ficado com a Secretaria Municipal de Habitação. "O movimento esperava que fosse o Simão Pedro."

Protestos. Mas os gestores de repasses do Minha Casa Minha Vida filiados ao PT argumentam agir com independência. "Não temos ligação com nenhum governo. Nós protestamos contra quem for, não importa o partido. Há um mês, fizemos protesto na frente da casa do Haddad", argumentou o petista José de Abraão, coordenador da Associação dos Trabalhadores Sem Teto da Zona Noroeste e líder sem-teto há 27 anos.

Também filiados à sigla, Teresinha Gramacho e Aparecido Monteiro da Silva comandam duas entidades que atuam na zona norte e vão administrar, juntas, R$ 35,5 milhões do Programa Minha Casa Minha Vida Entidades. Tanto Teresinha quanto Aparecido são lideranças nas regiões do Limão e da Brasilândia, na zona norte, e fazem campanha para candidatos petistas em período de eleições. Mas eles também negam qualquer critério político na escolha dos beneficiários do programa.

Entre as entidades que receberam verba federal também está uma comandada por Nilda de Souza, candidata a vereadora pelo PCdoB em 2012, com 2.690 votos. Hoje, ela é gestora de R$ 29,1 milhões para a construção de dois empreendimentos com 400 moradias em Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital.

Defesa. Políticos do PT ligados aos movimentos de moradia argumentam que hoje as entidades gestoras de projetos do governo federal têm vida autônoma, sem vínculo direto com o partido. Mas eles defendem o direito de as entidades apoiarem seus candidatos nos pleitos.

"O movimento é autônomo e pode estar ou não estar ligado ao PT. Mas o negócio é que o partido sempre trabalhou com movimentos populares. Então, é natural essa ligação", diz o vereador Alfredinho. "Fico honrada em receber apoio dos movimentos populares de moradia", completa Juliana Cardoso.

Os petistas também defendem o sistema de pontuação obtido por meio de invasões e assembleias. "As entidades hoje fazem um papel para reduzir o déficit habitacional que o governo do Estado deveria fazer e não faz", critica o deputado Marcolino. Líder do PT na Assembleia Legislativa, ele recebe apoio do Movimento Habitação e Ação Social (Mohas).

Ao mesmo tempo em que elogia a militância das lideranças, o vereador Nabil Bonduki critica as regras estabelecidas por elas para a distribuição de moradias. "Deve ser fiscalizado com rigor o critério que está sendo usado pelo governo federal para escolher essas entidades", afirma./ADRIANA FERRAZ e DIEGO ZANCHETTA

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