Licenciamento em Valinhos aumenta 70% em dez anos

Lei que desconta do IPTU 50% do valor do IPVA de quem mora na cidade fez crescer registros

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2010 | 00h00

Campeão de vendas na concessionária Allegro, de Valinhos, Juliano Mateus Stenico, de 36 anos, convoca para dar entrevista o empresário Marcelo Augusto Balducci, de 39, "campeão de compras". Balducci tem 12 carros, quatro para uso familiar e oito da empresa. Casado, com dois filhos pequenos, ele conta que são dois carros disponíveis para cada um. Trata-se de um caso emblemático na cidade do Brasil onde o licenciamento de automóveis mais cresceu (70% na última década).

"Fico até preocupado com tanto carro", diz o despachante Gilson Zamproni, que na cidade tem status de celebridade. Zamproni afirma que encaminha 1.200 licenciamentos e transferências por mês. "Com essa história de financiamento em 72 meses, as pessoas estão comprando carro como se fosse feijão no supermercado."

"Troco de carro todo ano", diz Balducci, ao lado de um sorridente Stenico. Só de IPVA o empresário paga R$ 12 mil, contando apenas os da família.

Um dos motivos que levam tantas pessoas a pedir transferência de registro de automóvel para Valinhos é uma lei aprovada em 2006 pela Câmara Municipal, que dá abatimento no IPTU, desde que o proprietário do carro comprove residência na cidade. Para uma pessoa que paga por exemplo R$ 1 mil de IPVA, o desconto no IPTU será de R$ 500. Caso o valor do IPTU seja menor que 50% do IPVA, é possível estender o benefício a outro imóvel. Se não houver outro, perde-se o "troco".

Quem negocia veículos torce para que sua clientela (ou grande parte dela) continue a dar mais valor a um carro do que à casa própria. Juliano conta que, em muitos casos, ele precisa convencer o cliente de que a parcela que ele pretende assumir não cabe em seu orçamento. "Tem gente que chega aqui e diz: "Tudo bem, só quero ficar um ano com o carro novo". E devolve depois. O meu papel aqui é vender, então eu vendo assim mesmo", explica.

Ricardo Farias, vendedor premiado da Viva Motors, explica que não importa ao cliente se, em caso de financiamento, ele venha a pagar duas vezes o valor do carro. "Hoje em dia o comprador não está preocupado com o preço final, mas com o das parcelas", afirma.

A empresária Patrícia Toffoli, de 24 anos, emplacou na quinta-feira seu primeiro carro novo. No pátio da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran), ela parece convencida de que pagou mais barato por um Palio 0 km do que por um usado. "O carro usado está caro, não é vantagem", acha.

Muita gente em Valinhos "precisa" comprar um carro novo. "Rodo muito, meu carro já está com 70 mil km", diz o empresário Richard Souza, de 28 anos, que acompanha Patrícia ao Ciretran. Ao lado de um Sandero 2010, ele já pensa em qual será seu próximo carro.

Diante de tão voluptuosa demanda, não é de se espantar que um posto de gasolina na Rodovia dos Bandeirantes, no caminho para Valinhos, tenha virado point de carrões. "Eles (os proprietários) combinam de tomar o café da manhã aqui, aos sábados. Às vezes, você vê estacionados 20 Ferraris, 10 Maserati, Lamborghinis, Porsches, parece salão do automóvel", diz Ermínio Bittler, supervisor do posto, que tem 3 mil m² e oito bombas quádruplas.

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