Liberdade surpreende refugiada

Estudante síria deixou país após ser fotografada em uma manifestação contra Bashar Assad

O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h04

A estudante de Tecnologia da Informação Tala (nome fictício), de 24 anos, abandonou a universidade na cidade de Homs, na Síria, seis meses antes de se formar. Quando fugiu, mais importante que o futuro profissional era sobreviver. Ela havia sido fotografada em um protesto contra o governo do ditador Bashar Assad e não queria ter o mesmo destino do amigo médico torturado e morto por ter ajudado feridos em uma manifestação ou de uma adolescente que foi presa por escrever sobre liberdade no site do Facebook e que está há sete anos na prisão.

A jovem está há pouco mais de um ano no Brasil e ainda aprende a se deslocar por São Paulo, onde há dez vezes mais gente que em sua cidade natal.

Criada em um ambiente no qual mesmo entre quatro paredes é preciso dar a opinião em voz baixa, a maior novidade para ela é conviver com a liberdade dos paulistanos para dizer o que der na telha. Liberdade que Tala aproveita para cobrar da presidente Dilma Rousseff - "que lutou contra uma ditadura" - uma posição mais dura em relação à realidade política da Síria.

"As pessoas aqui me tratam bem, mas não sabem nada sobre a situação do meu país", destaca ela. O pouco que muitos conhecem sobre a cultura árabe é com base em novelas, que mostram moças que usam véu na cabeça, como ela. "Eu explico tudo porque para mim é importante que saibam o que está acontecendo lá."

Sem perspectiva de emprego em sua área de formação, ela ajuda o tio na contabilidade de sua loja. "Não me preocupo comigo, minha cabeça está lá (na Síria)", afirma. O pai dela, um médico, continua vivendo no país.

Família. O vendedor Jihad Mohammed, de 33 anos, conseguiu trazer toda a família para o Brasil. Vieram a mãe e dois irmãos, além da mulher e dos dois filhos pequenos. O prédio onde ele morava foi destruído e todos os seus bens acabaram saqueados. Ficou impossível continuar vivendo na região de Baba Amr, em Homs, uma das áreas mais castigadas pela guerra civil.

Como a mulher de Mohammed é brasileira, ela e os filhos conseguiram abrigo na Embaixada Brasileira, em Damasco. O caminho para ele foi mais complicado e incluiu uma longa viagem de carro a Beirute, no Líbano, e a necessidade de subornar militares para atravessar a fronteira.

A adaptação para Mohammed foi mais fácil do que a dos demais refugiados - ele já havia vivido anteriormente no País e fala bem o português. Atualmente, trabalha em uma loja na região central. "Mas preciso de apoio para manter minha família aqui", diz.

A situação dos irmãos de Mohammed é muito mais difícil. Antes de sair da Síria, um deles acabou preso e passou 45 dias sendo torturado. "Arrancaram todas as unhas das mãos dele", conta Mohammed, que novamente teve de usar o suborno para garantir que o irmão saísse vivo de lá.

Desempregados e sem falarem uma palavra em português, os outros familiares têm sofrido mais. "Um de meus irmãos quer voltar para a Síria, chegou até a comprar a passagem, mas o fizemos desistir", conta.

Hoje, voltar à terra natal seria suicídio, segundo Mohammed. Ele afirma que as milícias leais a Assad são impiedosas e estão bem informadas sobre quem se opõe ao regime, mesmo que estejam do outro lado do mundo, como é o caso de sua família.

Saudade. A grande esperança do vendedor é que, assim como outros ditadores do Oriente Médio, Assad seja deposto e termine o derramamento de sangue no Síria. Aí, sim, estará livre para voltar. "Aqui tem muito corre-corre, trânsito. Sinto falta da tranquilidade de lá", diz. / ARTUR RODRIGUES

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