'Lembrei de um tsunami e do Haiti'

Histórias de sustos, de esperança e de medo em meio à maior chuva registrada em quatro décadas

Ângela Lacerda, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL

"Foi uma tragédia, com as casas caindo, o povo gritando, o medo tomando conta. Lembrei de um tsunami e do terremoto no Haiti", resume o vendedor Ladjane Lopes, de 28 anos, morador de Santana do Mundaú, uma das cidades alagoanas mais atingidas. Ele conta que o rio subiu de nível e "em uma hora" devastou tudo. "Parece que jogaram uma bomba na cidade", comparou uma das coordenadoras de operações da Defesa Civil na região, Fátima Bittencourt.

A cidade ficou isolada até o domingo, quando o acesso pela estrada que a liga a União dos Palmares começou a ser recuperado. Somente anteontem começaram a chegar as primeiras cestas básicas, quando a fome já rondava os habitantes. "Mundaú já era", complementou Lopes. "Ninguém vende, compra, paga ou estuda." Só escapou quem morava em áreas muito altas. Até o prefeito Elói da Silva (PSC) virou desabrigado. Sua casa sumiu com as águas e ele está na casa de parentes.

Esperança. Enquanto a população se assombrava com os efeitos das águas que tomaram conta da cidade, Maria Jaciara Barbosa da Silva, de 19 anos, deu à luz na madrugada de anteontem à primeira filha, Maria Angelina. Ela mora com o marido em uma casa alugada em local alto, que não foi atingido. O parto foi normal, ajudado por uma parteira. "Minha filha tem história, vai ter o que contar", afirmou, feliz. Angelina, bisavó da criança, resumiu. "Ela é uma esperança bem verde e vai ter um futuro."

Sem emoção. Mas esperança parece uma palavra difícil para Carlos Alberto Brasil, de 59 anos, que perdeu a filha mais nova, de 3 anos, para a correnteza das águas do rio, em Branquinha, onde permanece como um entre centenas de desabrigados. Sem demonstrar emoção, disse estar conformado. "Aqui a água subiu de noite, salvei os outros filhos, mas perdi a caçula. Estava tudo escuro, eu não vi, não deu para salvar minha filha."

No buraco. Já o cortador de cana desempregado José Galdino, de 45 anos, ainda duvida do que lhe aconteceu na mesma cidade. Ele mora em um lugar alto, que nunca foi atingido pela água. Na sexta, o quarto onde dormia deu lugar a um buraco, que tragou a cama e o guarda-roupa. "Só deu para salvar a família."

Com medo. Raimundo Ferreira da Silva, de 53 anos, que morava na área ribeirinha de União dos Palmares e está em um abrigo, passou a tarde vigiando os lençóis que a mulher "lavou" nas águas sujas do Mundaú e estendeu no local onde antes tinha residência. "Estão roubando madeira (dos destroços)", disse, triste, numa cidade que chegou a registrar mais de 500 desaparecidos.

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