Acervo/Casa de Cultura Salvador Ligabue
Acervo/Casa de Cultura Salvador Ligabue

Largo da Matriz Velha: da guerra ao milagre da santa

Praça foi ponto de partida de tropas que lutaram contra Solano López no Paraguai; incêndio destruiu capela em 1896

Luiz Felipe Barbiéri, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2015 | 15h04

Numa pequena faixa, contornada pelas ruas Piqueri, João Alves e a Avenida Itaberaba, fica o Largo da Matriz Velha, na Freguesia do Ó.

O local foi testemunha de dois importantes acontecimentos na história do bairro. No dia 10 de abril de 1865, as primeiras tropas que lutaram na Guerra do Paraguai partiram dali rumo ao país vizinho. O episódio motivou a construção de um monumento, o Marco da Pedra, em 1934.

O original não existe mais. A Prefeitura instalou um memorial simbólico em 1993, durante reforma no largo. O Marco da Pedra, porém, nunca mais voltou - ele foi removido para restauro durante uma nova manutenção da praça, realizada em 2013.

Milagre.  Também foi ali que surgiu a segunda igreja do bairro, em 1796, depois que a primeira, feita de taipa quase 200 anos antes, desapareceu com o tempo.

A igreja Nossa Senhora da Esperança foi construída na Freguesia para que os devotos não precisassem ir até o centro da cidade cumprir suas obrigações religiosas. Em uma época em que chegar e sair da região era difícil por falta de vias de acesso rápido, a edificação facilitava a vida dos moradores.

Mas em 1896 essa condição mudou do dia para a noite.  Um incêndio botou abaixo a igreja e o vespeiro que há muito se encontrava na porta do prédio. Esse último, claro, era o verdadeiro alvo das chamas.

Uns dizem que o fogo foi ateado por um viajante. Outros que foi um sacristão. Pouco importa. Fato é que a mecha ardente não demorou a se espalhar pela vigas, ripas e forro, até queimar a igreja inteira.

Em reportagem especial sobre a Freguesia, em 1956, a "Folha da Noite" descreveu assim o incidente: "A cabecear desesperadamente, num verdadeiro delírio de sons, o velho sino da capela, pendurado, lá em cima, entre dois altos caibros, se pôs a badalar dentro da noite morta, enquanto um clarão sinistro se erguia, lá longe, na crista do morro da Freguesia...."

Depois do ocorrido, os moradores circundaram os entulhos até o amanhecer, como que remoendo a tragédia. Foi aí que uma menina de 14 anos avistou a imagem de uma santa, intacta, sob o braseiro. Ela se dirigiu até a pilha de destroços amontoados e recolheu a cabeça de Nossa Senhora das Dores. Um milagre, de acordo com os presentes.  O fogo poupou ainda a imagem de Santa Luzia, encontrada pouco depois, novamente, sob gritos milagreiros.

Nossa Senhora das Dores perdeu o corpo no incêndio, mas sua cabeça foi incrustada no arco principal da nova igreja, construída cinco anos depois, no Largo da Matriz Nova. Na Paróquia Nossa Senhora do Ó, ainda é possível vê-la até hoje. Intacta. Santa Luzia e seu novo altar também estão por lá.  

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