Lanzmann atrai público, mas decepciona

Palestra de cineasta francês não cativou a plateia

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2011 | 00h00

A mesa do escritor e cineasta francês Claude Lanzmann, de 85 anos, autor do histórico filme Shoah e do livro autobiográfico A Lebre da Patagônia, recém-lançado pela Companhia das Letras, era uma das mais esperadas da 9.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). De fato, atraiu um público imenso, pessoas dispostas a ouvir como ele se relacionava com Simone de Beauvoir ou conseguiu os depoimentos de pessoas que passaram pela terrível experiência de quase morrer em câmaras de gás dos campos de concentração nazistas.

A mulher de Sartre continuou repousando em paz, para frustração dos caçadores de escândalo, mas Lanzmann revelou que a proximidade da morte, para ele, antes de ser apavorante, é e sempre foi algo desejável. Aliás, ele começa A Lebre da Patagônia de uma forma que não deixa dúvida sobre a sedução da morte, contando como a imagem de uma guilhotina vista em um filme com Dita Parlo (L"Affaire du Courrier de Lyon) quando ainda era criança marcou profundamente sua vida.

Em sua palestra, em que contou a traumática experiência de afogamento quando captava recursos para a realização de Shoah, Lanzmann revelou que teria preferido morrer a não ter feito o filme de 9 horas de duração, produção que inaugurou um gênero cinematográfico, nem documental nem ficcional, mas cinema-verdade, em que não existe a manipulação da montagem, mas depoimentos emocionados de ex-prisioneiros. O filme só se concretizou quando o ex-ministro israelense Menachen Begin assumiu o poder em Israel.

Para conseguir o dinheiro, Lanzmann teve de se comprometer a terminar seu filme em 18 meses. A duração de Shoah não poderia exceder duas horas, segundo o acordo. Claro que Lanzmann mentiu. O filme levou oito anos para ser realizado. Estreou apenas em 1985. "Ao me afogar, flertei voluntariamente com a morte para não ser infiel ao compromisso que tinha assumido com Begin e Israel." A frase não comoveu a plateia. Lanzmann, que fez a defesa de um exército forte em Israel, decepcionou o público.

Battisti. Mais cedo, em sua mesa com o cronista do Estado Ignácio de Loyola Brandão, o psicanalista Contardo Calligaris comentou o fato de ter substituído o italiano Antonio Tabucchi. "Eu teria feito a mesma coisa", disse, referindo-se ao anúncio do autor de que não viria mais ao Brasil em resposta à decisão do País de conceder visto ao terrorista Cesare Battisti. / COLABOROU RAQUEL COZER

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