Ladrões escolheram as joias que queriam na Tiffany do Cidade Jardim

Ladrões escolheram as joias que queriam na Tiffany do Cidade Jardim

Para polícia, assaltantes são profissionais e conheciam bem os detalhes do funcionamento da loja; alguns vestiam roupas sociais

Bruno Tavares, Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2010 | 00h00

Perigo. As câmeras mostram um dos ladrões andando com a arma engatilhada pelos corredores do shopping

 

Os ladrões escolheram o que roubar. Os homens com submetralhadoras e escopetas flagrados pelas câmeras do Shopping Cidade Jardim apontavam para as vitrines da Tiffany & Co. e mandavam os funcionários apanhar colares e pulseiras específicos. Diante das imagens do roubo e dos depoimentos das testemunhas, a polícia não tem dúvidas: o crime foi obra de profissionais, que estudaram a joalheria antes de atacá-la.

As imagens divulgadas ontem mostram que a quadrilha tomou alguns cuidados até para invadir o shopping. Ladrões de gravata e óculos escuros aparecem nas imagens. Pensavam em se confundir com clientes. Dois outros usavam gorros feitos com meias de mulher.

A polícia aposta nas imagens para identificar os criminosos. Os homens que roubaram a joalheria mais luxuosa do País são diferentes dos que invadiram a loja da Montblanc no Shopping Pátio Higienópolis, em 12 de janeiro. Naquele dia, três assaltantes agiram pouco antes do fechamento do shopping, às 22 horas, enquanto a ação de anteontem ocorreu às 15h20.

Outra linha que a polícia deve seguir para tentar identificar os criminosos é fechar o cerco aos possíveis compradores do material roubado. Como as peças levadas são exclusivas da loja, o rastreamento delas pode permitir que a polícia faça o caminho inverso: do comprador ao ladrão, caso o material seja negociado no mercado nacional.

Duas testemunhas do caso foram ouvidas ontem no 34.º Distrito Policial (Morumbi). Pelo menos oito homens armados com escopetas e submetralhadoras entraram no shopping e saíram da joalheria com três sacos cheios de joias. Até as 22 horas, a Tiffany ainda não havia informado o valor do prejuízo à polícia.

Carros. A polícia sabe que os ladrões usaram um Gol cinza e um Golf preto para chegar ao shopping. Eles entraram pelo acesso da Avenida Magalhães de Castro (pista local da Marginal do Pinheiros), reservado ao serviço de manobrista. A rampa passa pelos fundos da Tiffany.

Após a fuga, os veículos foram abandonados na região do Brooklin, próximo da Ponte Octavio Frias de Oliveira. O Golf havia sido roubado meia hora antes do assalto. Dois homens em uma motocicleta abordaram o dono do carro em Santo André. O outro carro é o que a polícia chama de "NP" ou "ninguém paga". Trata-se de veículo financiado em nome de laranjas.

O Gol dos ladrões havia sido financiado em nome de um morador do Ipiranga, na zona sul. O homem, porém, não sabia que o carro havia sido financiado em seu nome, o que fez a polícia voltar quase à estaca zero nas investigações. Daí a divulgação das fotos no fim do dia. É assim que os policiais esperam obter informações sobre os bandidos.

Inventário. A polícia não tem ainda as imagens feitas pelo circuito interno da Tiffany. A loja prometeu entregá-las até o fim da semana, alegando precisar de autorização da matriz americana. Durante o dia de ontem, a joalheria permaneceu fechada para que os funcionários pudessem fazer um inventário das mercadorias roubadas.

Os ladrões levaram as peças expostas nas vitrines, deixando intacto o estoque sob as prateleiras. Para o delegado José Carlos Gambarini, esse detalhe praticamente descarta a participação de funcionários no roubo. "Se os assaltantes tivessem informação privilegiada, com certeza abririam as gavetas abaixo das vitrines e levariam todas as peças", afirmou o delegado. "O prejuízo seria bem maior."

A importância do assalto é tamanha para a marca que um de seus diretores mundiais é aguardado no Brasil para rever o sistema de segurança da filial do Cidade Jardim.

Rotina. Dentro das lojas do Cidade Jardim, ontem, ainda se comentava o efeito do assalto. Dois vendedores debatiam: "Como é que pode colocar a Tiffany em um lugar tão cercado de acessos? É só o cara entrar, pegar e sair."

No andar de cima, outras quatro vendedoras comentavam que, anteontem, ao fechar a porta, colocaram para dentro três frequentadoras que haviam se perdido de seus seguranças particulares. "Elas ligaram desesperadas para eles, e só saíram quando vieram buscá-las."

As portas da saída de emergência usadas pelos ladrões estavam fechadas com cadeados. O número de seguranças circulando no shopping era visivelmente maior. A assessoria do shopping nega o reforço, mas pelo menos três seguranças não sabiam informar onde fica a administração. Respondiam: "Hoje é meu primeiro dia aqui."

Os lojistas aguardam para saber quais providências serão tomadas, em reunião marcada para amanhã. COLABORARAM JOSMAR JOZINO E PAULO SAMPAIO

Os maiores roubos da década

Fevereiro de 2003

R$ 691 mi em diamantes são levados na Bélgica

Março de 2004

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Fevereiro de 2005

Furto de R$ 310 mi no Aeroporto em Amsterdã

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6 de agosto de 2009

Assaltantes roubam R$ 163 milhões da Graff de Londres

 

Marca de NY virou "objeto de desejo"

Fundada em 1837 em Nova York, a Tiffany & Co. virou objeto de desejo ao criar, em 1886, o anel de noivado "perfeito" - um solitário de diamante cuja lapidação valoriza mais o brilho do que o peso da pedra. A marca, porém, ficou conhecida mesmo após batizar, no original em inglês, o filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany"s; 1961), em que Audrey Hepburn gostava de "namorar" suas vitrines. Sua caixa "azul-Tiffany" foi uma sacada do criador, Charles Lewis Tiffany, e deu tão certo que até hoje embala as joias. A 1.ª loja no Brasil foi aberta em 2001, no Shopping Iguatemi.

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