Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

Kassab quer ''espremer'' escolas do Itaim

Prefeitura nega que vá transferir equipamentos da Horário Lafer para o Parque do Povo; mas quer deixá-los só em 25% da área

Fábio Mazzitelli, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2011 | 00h00

A gestão do prefeito Gilberto Kassab (sem partido) quer concentrar sete dos oito equipamentos sociais em funcionamento no quarteirão "vendável" do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo, em um espaço que pode ser reduzido a 25% da área total do terreno, de 20 mil metros quadrados.

Com base em uma prévia dos estudos autorizados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a Prefeitura vê a possibilidade de reagrupar em uma área de 5 mil a 8 mil metros quadrados os prédios de uma escola, uma pré-escola, uma creche, um posto de saúde, um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), um teatro e uma biblioteca.

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Marcos Cintra, os equipamentos públicos não perderão área útil. A possibilidade de transferi-los para o Parque do Povo, incluída no projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal anteontem, foi descartada ontem por Kassab, que promete sancionar o substitutivo vetando a transferência ainda neste mês.

"Nós imaginamos que esses equipamentos poderão, permanecendo no local, ocupar uma área de 5 mil a 8 mil metros quadrados. A área remanescente ficaria livre para ser permutada em troca de creche. Portanto, dos 20 mil metros quadrados, de 12 mil a 15 mil serão objeto dessa alienação", diz Marcos Cintra. "A área útil ocupada por esses equipamentos vai ser igual ou até superior à que eles têm hoje. O que vamos fazer é racionalizar o uso do terreno para podermos vender", afirma.

O secretário calcula que o metro quadrado do terreno varie hoje no mercado entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, mas ressalta não ser possível fixar um prazo para o início do projeto, que prevê entre as obrigações da empresa que ficar com a área a reconstrução dos equipamentos. Esses encargos serão abatidos do total de 200 creches que o futuro comprador se comprometerá a erguer. "Achamos que a iniciativa privada pode ser muito mais ágil para nos entregar creches prontas, chave na mão", diz Cintra.

O quarteirão do Itaim-Bibi, delimitado pelas Ruas Horácio Lafer, Salvador Cardoso, Cojuba e Lopes Neto, está em as áreas mais nobres da capital e desperta grande interesse do setor imobiliário. O único equipamento social que funciona no local e sairá do bairro será a unidade da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

"Ao ficar sabendo do projeto, a própria Apae solicitou a mudança para outra área", diz Marcos Cintra. "O nosso projeto é ceder terrenos de alto valor (de mercado) para um programa de construção de creches. Isso pode ser feito sem acabar com os serviços que hoje são oferecidos, com uma reconstrução dos equipamentos em prédios mais modernos e eficientes", diz.

Pedido de tombamento. Para a alienação da área, entretanto, a Prefeitura depende que o Conselho do Patrimônio Histórico e Arquitetônico do Estado (Condephaat) recuse o pedido de tombamento do terreno, apresentado pela Associação de Moradores do Itaim-Bibi, contrária à venda do quarteirão. Se confirmado, o tombamento inviabiliza o projeto da Prefeitura.

"Não há valor arquitetônico naqueles equipamentos que justifique o tombamento", afirma o secretário Marcos Cintra.

Para os moradores, que já haviam acionado o Ministério Público antes da aprovação do projeto pelo Legislativo, o quarteirão tem relevância histórica - por fazer parte do início da ocupação do bairro - e também ambiental, em razão da área verde.

Na tarde de ontem, cerca de 50 pessoas eram atendidas no posto de saúde e havia movimento em todos os equipamentos públicos, exceto o teatro, que passa por reforma e está fechado.

REAÇÕES

Renata Pannunzio

Universitária, de 21 anos

"Já fui tomar vacina no posto de saúde e sou contra expandir a cidade para cima, com mais prédios. O trânsito já é infernal. A Prefeitura só está pensando em dinheiro, e não no bem-estar da população."

Matilde Di Bruno

Babá que trabalha no

bairro, de 59 anos

"Uso o posto e sou contra a venda do quarteirão. Não estão pensando em quem precisa usá-lo."

Daniela Lobo

Advogada, de 40 anos

"No lugar de vender o quarteirão, a Prefeitura deveria transformá-lo em um parque. Sinto muita falta de áreas verdes na cidade."

Cléia Fernandes da Silva Cozinheira, de 25 anos

"Meu filho estuda na escolinha, que funciona bem, uma maravilha. A comunidade toda vai perder com a venda. Erguer prédio aqui vai prejudicar todo mundo do bairro, não só a gente."

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