Kassab quer dar a clubes área que seria parque

Proposta de permitir que Palmeiras e São Paulo usem terrenos públicos por mais 70 anos acaba com plano de criar espaço verde de 160 mil m²

DIEGO ZANCHETTA, RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2012 | 03h06

O prefeito Gilberto Kassab (PSD) enviou um projeto para a Câmara que regulariza a ocupação de terrenos públicos por clubes de futebol de São Paulo. Mas para a zona oeste, a proposta vai significar a perda de um parque de 160 mil metros quadrados planejado para 2020.

Pela proposta, que chegou na semana passada ao Legislativo, o Palmeiras e o São Paulo ganhariam o direito de ficar por mais sete décadas nos terrenos que há cerca de 20 anos abrigam seus centros de treinamento, na Avenida Marquês de São Vicente. O problema é que essa área e o pátio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ao lado receberiam a área verde que ajudaria a compensar o adensamento populacional causado pela Operação Urbana Água Branca.

O parque estava previsto no licenciamento ambiental da operação, iniciada em 1995, e consta em uma determinação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Sustentável (Cades). Ele seria maior que o Parque da Água Branca (136 mil m²), a única área verde da região da Barra Funda, Perdizes e Pompeia.

A zona da operação urbana deve receber mais 66,9 mil moradores, segundo previsão da Prefeitura. De acordo com ambientalistas, a criação do parque amenizaria o impacto do adensamento - ela foi a maior exigência feita por moradores nas audiências públicas que antecederam a operação urbana.

A lei municipal também afeta a Portuguesa, já que regulariza o terreno onde fica o Estádio do Canindé. O Executivo pediu urgência na tramitação do novo projeto e a Mesa Diretora deve colocá-lo em votação ainda neste semestre. No projeto, Kassab cita que os clubes "com projeção internacional contam com torcedores de seus respectivos times de futebol por todo o território nacional, o que revela o caráter social da manutenção da ocupação das áreas pelos clubes".

Críticas. "Pelo jeito já começou o vale-tudo da campanha eleitoral. É uma grande sacanagem com a sociedade você beneficiar clubes que pagam milhões por jogadores e que não dão nenhuma contrapartida social para ninguém", diz o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani. "A região não para de receber prédios, e esse era um parque público apresentado como demanda da população da região, já há quase 20 anos." Mantovani explica que os parques ajudam a reduzir as ilhas de calor. "Regiões pouco arborizadas como a Barra Funda são até 5ºC mais quentes que outras mais verdes da cidade."

Regina de Lima Pires, do Movimento SOS Parque da Água Branca, diz que o adensamento excessivo da Barra Funda é o maior problema da região. Para ela, se as áreas foram cedidas aos clubes, a Prefeitura deveria ao menos cobrar aluguel. "São áreas municipais, poderia ter uma cobrança gradual."

Defesa. Para os defensores da proposta, ela não vai afetar o ambiente da região, já que os centros de treinamento também são áreas verdes, apesar de não serem abertos ao público. "O projeto cumpre a função ambiental de manter os terrenos sem risco de serem impermeabilizados. Por isso não há confronto legal", justifica o presidente da Câmara, José Police Neto (PSD).

O vereador Marco Aurélio Cunha (PSD), ex-diretor de futebol do São Paulo, também saiu em defesa da proposta. "Ninguém vai construir prédio ali. Na verdade vai continuar sendo um parque, tem muitas espécies de passarinhos que ficam nos campos do nosso CT."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.