Justiça indeniza em R$ 24 mil noivos que se casaram no escuro

Sem energia, cerimônia só pôde ser realizada após igreja ter sido iluminada com auxílio de faróis de carros, luz de câmeras e lanternas

Chico Siqueira, Especial para o Estado

18 Julho 2014 | 11h15

ARAÇATUBA - A Justiça determinou na terça-feira, 15, que a concessionária Elektro pague indenização de R$ 24 mil a um casal de noivos que teve de se casar no escuro por falta de energia elétrica. O advogado Marlon Santana e a estudante de medicina Rubia Cunha Santana  fizeram diversos preparos, mas no dia da cerimônia um corte de energia deixou no escuro a Igreja Matriz de Macedônia, a 580 quilômetros de São Paulo.

A decisão do Juizado Especial Cível de Fernandópolis, ratificada em segunda instância, prevê o pagamento de R$ 12 mil para o advogado e R$ 12 mil para a estudante de medicina.

Segundo Marlon, o casamento só pôde ser realizado porque os convidados direcionaram os faróis de seus carros para o interior da igreja, que foi parcialmente iluminada. A iluminação da equipe de filmagem e lanternas ajudaram os noivos e padrinhos a ler e assinar o livro de proclamas.

"Houve boa vontade do padre, que esperou mais de duas horas e meia para realizar a cerimônia", contou Marlon. O casamento estava marcado para as 18h, mas só foi realizado após as 20h30, quando, cansados de esperar, os noivos decidiram improvisar o enlace.

"Você demora um ano preparando seu casamento para que tudo dê certo, dentro do planejado, mas chega no dia e acontece algo que põe tudo a perder", disse Rubia. "Foi um problema que causou uma frustração. Ficamos preocupados com os convidados, pois havia crianças e pessoas idosas, e toda a preparação de um ano, que estava indo embora por falta de energia elétrica", contou o casal.

De acordo com o casal, a atitude da Elektro prejudicou ainda mais a situação. "Ligamos várias vezes para a concessionária, ela prometia que a energia seria logo restabelecida, em 15 minutos, depois em 20 minutos, mas isso nunca aconteceu e os convidados estavam dentro da igreja esperando", lembrou Rubia.

Improviso. Cansados de esperar, Rubia e Marlon decidiram, com ajuda de amigos, fazer o casamento. "Eles manobraram os carros de frente para a igreja e acenderam os faróis que ajudaram a iluminar, mas também contamos com ajuda das luzes da equipe de filmagem e com lanternas que eram usadas para a assinar o livro", explicou Rubia.

Marlon diz que a preocupação com a falta de energia e a possibilidade de o casamento não ocorrer tiraram parte da emoção da festa. "Toda a nossa adrenalina, que deveria ocorrer com a emoção do casamento, acabou direcionada para a falta de energia, pois não sabíamos se o casamento aconteceria ou não", contou. "Nossa emoção com o casamento acabou esvaziada, porque a gente tinha que desviar a atenção para outro problema."

Segundo ele, a cerimônia teve de sofrer mudanças para que pudesse ser realizada mesmo com a falta de energia. Uma delas seria uma sessão de canto, que seria feita por Rubia, que é corista na Igreja. "Era a surpresa, minha noiva cantaria para mim, com coral e músicos, mas tivemos dispensar músicos e os instrumentos elétricos e improvisar um acústico só com a voz dela e violão."

Indenização. Após o casamento, Marlon procurou a Elektro para saber a causa da falta de energia. "O que eles me disseram é que era acidental, só isso." Diante da falta de atenção da concessionária, ele decidiu acionar a empresa.

"Se a gente soubesse que a queda de energia tivesse sido provocada por terceiros, por algum acidente grave, é lógico que nem entraríamos com a ação", disse o advogado Aparecido Carlos Santana, pai de Marlon, que ajuizou a ação para o filho.

Segundo ele, a ação de indenização foi julgada em primeira instância com a determinação de pagamento da indenização de R$ 12 mil para Marlon e R$ 12 mil para Rubia. "O colégio recursal confirmou a sentença e, se houver recurso, agora é extraordinário ao Supremo Tribunal Federal (STF)", explicou. "A importância dessa decisão está no fato de que as pessoas não podem se sujeitar às grandes corporações e devem ir atrás dos seus direitos", concluiu.

"Essa decisão não vai trazer o tempo de volta e nem os sentimentos, mas acho que o efeito dela é pedagógico, porque pode ajudar outras pessoas prejudicadas pela força dessas grandes concessionárias. Nós trocaríamos qualquer indenização pela energia elétrica naquele dia", afirmou Marlon.

Procurada pela reportagem do Estado, a Elektro informou que está analisando a decisão da Justiça.

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