Alex Silva/Estadão
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Justiça impede obra em prédio onde queda de marquise deixou jovem morto

Juiz atendeu a pedido da família da vítima, que quer realização de perícia complementar no local. Pais vão entrar com pedido de indenização contra responsável pela queda da estrutura que matou o estudante Thiago Nery, em novembro

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 19h12

SÃO PAULO - A Justiça de São Paulo ordenou que o Condomínio Edifício Vila América, na Rua Bela Cintra, não modifique, reconstrua ou altere a fachada do local, onde em novembro uma marquise desabou e deixou um adolescente morto e outro ferido. A proibição ocorre para que um perito judicial possa fazer uma análise no local antes que qualquer obra eventualmente apague vestígios que expliquem a dinâmica e a responsabilidade pelo acidente. A perícia integrará um pedido de indenização que a família da vítima fará contra o responsável pelo desabamento. 

A decisão da 2.ª Vara Cível da capital foi tomada pelo juiz Renato Acacio de Azevedo Borsanelli nesta quarta-feira, 18. "De fato, ante a possibilidade de reparação e reconstrução da fachada do edifício réu, há fundado receio de que a demora na produção da prova torne impossível ou muito difícil a apuração das causas do acidente fatal", escreveu o magistrado.

A perícia judicial deverá se somar à análise que já está sendo conduzida pelo técnicos do Instituto de Criminalística sobre o caso. O laudo do instituto vai integrar o inquérito conduzido pela Polícia Civil sobre as responsabilidades criminais do desabamento.

"Os pais ainda estão muito chocados, mas querem continuar a apuração dos fatos. O pedido de indenização é o mínimo para que o evento seja lembrado e que outros eventos similares não aconteçam", disse o advogado Luciano Godoy, que representa a família do jovem Thiago Nery Qualiotto, de 17 anos.

Ele explica que no pedido de indenização não será estimado um valor, o que deve acontecer a partir da definição do juiz. "A família não faz questão do valor, mas sim do reconhecimento da responsabilidade do culpado, para que isso não fique impune", disse o advogado ao Estado nesta quarta. 

O desabamento da estrutura aconteceu na noite de 13 de novembro na Rua Bela Cintra. A estrutura caiu sobre as vítimas por volta das 19 horas. A marquise, que aparentava ter cerca de 15 metros de comprimento, cobria toda a entrada do edifício residencial. Com o desabamento, parte da estrutura ficou apoiada sobre um dos muros do condomínio e outra, atingiu o solo na área em que os jovens estavam. Nery tinha ido ao prédio visitar o amigo João Tess Portugal, que se feriu no tornozelo com o desabamento. 

"Infelizmente nada poderá trazer meu filho de volta, mas a busca por responsabilidades tem que continuar. Um garoto lindo, cheio de vida, do bem teve seus sonhos interrompidos por uma tragédia que, muito provavelmente, poderia ter sido evitada. A dor é insuportável!", escreveu a mãe de Nery em uma rede social. 

No dia seguinte ao acidente, o sobrepeso na estrutura era considerado a principal hipótese para o desabamento. Presente na vistoria realizada no dia 14 de novembro, o gerente regional metropolitano do Crea-SP, Marcelo Bruni, afirmou na oportunidade que o mais provável é que a marquise tenha caído por estar suportando um peso maior do que o projetado para a estrutura. “Sem dúvida, ela não estava trabalhando na condição original do projeto e recebeu cargas de argamassa.”

Especialistas explicaram também que a queda aconteceu por cisalhamento – quando a laje desaba de uma vez, como se a estrutura de ferro responsável por segurá-la (chamada na engenharia de “armadura”) tivesse sido cortada por uma tesoura. Em tese, uma das hipóteses para que isso aconteça é quando há infiltrações na estrutura e, consequentemente, oxidação do ferro.  

O Estado tentou contato com o síndico do prédio, que figura como requerido na ação, mas não houve sucesso. Em depoimento à polícia, o síndico informou que a estrutura havia passado por avaliação recentemente e que não houve indicação de problemas na estrutura. 

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